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OS PAIS DA IGREJA E A SOLA SCRIPTURA
OS PAIS DA IGREJA E A SOLA SCRIPTURA

OS PAIS DA IGREJA E A SOLA SCRIPTURA

 

"Qualquer ensinamento que não se enquadre nas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres todos os dias" (Martinho Lutero)

 

Uma das falácias mais repetidas pelos romanistas é que o conceito fundamental de “Sola Scriptura” é uma “invenção de Lutero”, que não era pregada na Igreja primitiva, aquela dos primeiros séculos de Cristianismo. O que Lutero e os demais Reformadores pregavam era que nós não podemos ultrapassar as Escrituras para impor dogmas ou doutrinas que não tem harmonia com a Sagrada Escritura, visto que esta é o ápice da autoridade em matéria doutrinária, constituída por Deus para ser o pilar e fundamento de nossa fé.

 

Este presente estudo elaborado visa juntar evidências sólidas e marcantes que demonstram da maneira clara e inequívoca que a única “invenção” que existe são os dogmas e doutrinas do catolicismo que não tem qualquer apoio bíblico. A Sola Scriptura, assim como os demais princípios da Reforma Protestante, longe de serem “invenções do século XVI”, foi apenas o retorno àquilo que já era pregado pelos apóstolos e pais da Igreja nos primeiros séculos.

 

Iremos, para fundamentar o nosso estudo, fazer uso constante da Patrística, o estudo dos documentos históricos dos Pais da Igreja Primitiva, para ver se ela era ou não adepta das bases da Sola Scriptura – doutrina de que a Escritura Sagrada é a autoridade máxima e final em regra de fé, e que todas as doutrinas religiosas devem estar subordinadas em harmonia a ela.

 

As provas são realmente esmagadoras, e analisaremos elas ao longo dos séculos, terminando por mostrar também até onde ia a “tradição” e quais são os limites dela, assim como deixar claro quando e como que a Bíblia deixou de ser a única regra de fé para os cristãos, que com o tempo passaram a crer nas tradições humanas em lugar do mandamento de Deus, que se encontra nas Escrituras Santas do Senhor.

 

Infelizmente, há pouco ou quase nada sobre este importante tema em sites evangélicos que defendem a fé. Não sei se é por pouco se importarem com a Patrística ou por muita dó dos católicos, mas não vemos muito sobre isso por aí. Pelo menos de tudo o que eu consegui pesquisar na internet durante meses, o máximo que chegam a fazer é citarem um ou outro texto apenas. Por isso, me empenhei em “vasculhar” os escritos dos Pais com a finalidade de trazer provas sólidas e eficientes que demonstrem de maneira clara e elucidativa que os pais da igreja não contrariavam os Reformadores no tocante à regra de fé e prática.

 

Como o objetivo aqui é apenas esmagar as pretensões católicas com base na Patrística, não será necessário abrir a própria Bíblia com esta finalidade, visto que para isso já existem os tópicos: “A Sola Scriptura (P1)” / “A Sola Scriptura (P2)” / “A Sola Scriptura (P3)”, todos estes elaborados por mim e que buscam, a partir da própria Bíblia, provar este princípio cristão.

 

Quanto ao mais, estarei apenas mostrando através da Patrística aquilo que o clero católico mais quer ver bem escondido, mas já que eu não tenho medo de ser queimado no fogo, torturado ou morto por eles (ainda bem que a “Santa” Inquisição já foi para o espaço), então eu acho que não tem tanto problema assim em mostrar – de uma vez por todas – os graves erros que o catolicismo enfrenta pela frente ao fazer essa grave acusação sem fundamento.

  

 

-A Autoridade Suprema das Escrituras no Século I

 

Nada melhor do que começarmos este estudo com as provas da Sola Scriptura logo no primeiro século. Nesta época, além dos escritos apostólicos que fazem parte da Sagrada Escritura que estamos tratando, temos também outros escritos (não apostólicos, mas relevantes como fonte histórica) como a carta de Policarpo (69-155 AD) aos Filipenses e a de Clemente (35-101 AD) aos Coríntios.

 

Estes tiveram contato com os apóstolos, e somam mais provas para o que estamos tratando, conquanto que as obras dos Pais nesta época não eram tantas quanto aquelas que viriam nos séculos posteriores, em muito maior quantidade tanto de escritores quanto de obras escritas. Mesmo assim, as evidências nestas duas epístolas nos indicam claramente o princípio no qual estamos lidando. Vamos dar início com a carta de Policarpo, que escreve o seguinte:

 

“Creio que sois bem versados nas Sagradas Letras e que não ignorais nada; o que, porém, não me foi concedido. Nessas Escrituras está dito: “Encolerizai-vos e não pequeis, e que o sol não se ponha sobre vossa cólera.” Feliz quem se lembrar disso. Acredito que é assim convosco” (Policarpo aos Filipenses, 12:1)

 

É bem interessante notarmos aqui que, em primeiro lugar, os cristãos do primeiro século já estavam versados nas Sagradas Letras. Conquanto que nada nos seja dito com relação a eles estarem sendo “doutrinados pela tradição”, a Sagrada Escritura aparece como a única regra de fé nos cristãos dos primeiros séculos. Mais adiante veremos que a tradição não servia para fundamento de doutrina religiosa não-bíblica, mas somente para práticas complementares (não-doutrinárias).

 

Quando Policarpo escreve dizendo que os cristãos de Filipos estavam “versados nas Sagradas Letras” a tal ponto de que “não ignoram nada”, isso nos leva a crer que eram realmente essas mesmas “Sagradas Letras” (o único meio pelo qual Policarpo aponta quanto a eles serem versados) a autoridade suprema em regras doutrinárias.

 

Não vemos ele dizendo sobre sermos versados em algum outro lugar, porque a doutrina está dentro das Escrituras, e não fora dela! Em segundo lugar, é importante observarmos que a passagem Escriturística na qual Policarpo faz tal citação não provém do Antigo Testamento, mas sim do Novo, mais especificamente na epístola paulina aos Efésios (4:26).

 

É óbvio que eu não estou dizendo que o Antigo Testamento não era “Escritura Sagrada”, mas sim que o Novo Testamento também já era considerado, já em pleno primeiro século AD, como parte das Escrituras. Ou seja, os cristãos estavam versados nas Sagradas Letras, o Antigo Testamento e também o Novo, com as epístolas paulinas, sem ignorar coisa alguma, mas – é claro – ignorando qualquer “tradição” que não aparece na epístola. Os cristãos do século I poderiam ignorar a “tradição”, mas certamente não ignoravam as Sagradas Letras!

 

A evidência mais forte e clara de que a Sagrada Escritura era a autoridade máxima e suprema no século I, é o fato de que os cristãos se “curvavam” diante dela:

 

“Irmãos, sede cheios de imitação e zelo no que se refere à salvação. Vós vos curvastes sobre as Sagradas Escrituras, essas verdadeiras Escrituras dadas pelo Espírito Santo. Sabeis que nada de injusto e de falso está escrito nelas. Não encontrareis que os justos tenham sido rejeitados por homens santos” (Clemente aos Coríntios, 45:1)

 

Que outra figura de linguagem seria mais adequada e precisa para relatar a autoridade máxima de algo, senão o termo: “vós vos curvastes diante das Sagradas Letras... essas verdadeiras Escrituras dadas pelo Espírito Santo”? Será que Clemente iria empregar uma linguagem tão forte e eloquente, chegando a tal ponto de afirmar a supremacia das Escrituras a se “curvar” diante delas, se o objetivo dele era afirmar que a Escritura NÃO é a autoridade máxima e suprema na Igreja?

 

Será que alguém que quer acentuar que algo não é autoridade máxima vai empregar uma linguagem dessas? Se a Escritura não era a autoridade máxima, por que Clemente não coloca nada do lado dela como sendo juntamente importante; ou melhor, por que ele nunca nos diz para nos “curvarmos diante da ‘Sagrada’ Tradição”??? A resposta para isso é realmente muito simples: Era a Escritura a autoridade máxima e a palavra final na Igreja, motivo pelo qual Clemente insiste tanto em acentuar novamente que:

 

“Caríssimos, conheceis, e conheceis bem, as Sagradas Escrituras, e vos inclinastes sobre as palavras de Deus. Nós vos escrevemos essas coisas para recordar” (Clemente aos Coríntios, 53:1)

 

Nada – além das Escrituras – é referido como sendo as “palavras de Deus”. Somente as Sagradas Escrituras eram alvo de “inclinação” (i.e, subordinação, obediência à autoridade, sujeição a algo supremo) dos cristãos. Este quadro nos mostra de forma clara e inequívoca que é algo tolo e irracional acreditar que os pais da igreja do primeiro século perdiam o tempo deles falando sobre sermos “versados nas Sagradas Letras e nos inclinarmos diante delas”, sendo que ela nem sequer era a autoridade suprema diante do que nós temos que nos “inclinarmos”!

 

 

-A Autoridade Suprema das Escrituras no Século II

 

Muitas outras obras foram escritas pelos Pais no século II, quando entramos com Justino, Tertuliano, Orígenes, Irineu, Hipólito, Teófilo, entre outros. Dentre tantas citações que diretamente ou indiretamente revelam os conceitos da Sola Scriptura em seus escritos, irei passar alguns deles aqui neste estudo. Começaremos com o estudo das obras de Justino mártir que, nas suas palavras, dizia que:

 

“Não temos algum mandamento de Cristo que nos obrigue a crer nas tradições e nas doutrinas humanas, mas somente naquelas que os bem-aventurados profetas promulgaram e que Cristo mesmo ensinou, e eu tenho cuidado de referir todas as coisas às Escrituras e pedir a elas os meus argumentos e as minhas demonstrações (Justino Mártir, Diálogo com Trifão)

 

Aqui está uma das principais bases da Sola nos escritos de Justino, que nos revela uma prática constante na Igreja cristã primitiva que consistia em rejeitar as tradições na forma de doutrinas humanas e referir todas as coisas à Escritura. Para Justino, deixar de referir TODAS as coisas à autoridade máxima da Sagrada Escritura significa aderir a tradições e doutrinas humanas. É digno de nota que Justino se esforçava a por os seus argumentos com base nas Escrituras, bem como as suas demonstrações tinham ela por fundamento, e não apenas em “um ou outro assunto”, mas em “todas as coisas”!

 

É evidente que jamais algum católico terá a coragem de ser como Justino e ter o cuidado de referir TODAS as suas doutrinas às Escrituras, pois a grande maioria de seus dogmas e doutrinas humanas não se encontram em parte alguma da Bíblia (como eles mesmos confessam e admitem), mas sim numa chamada “tradição oral”.

 

Assim, quando o povo de Deus diz que determinada DOUTRINA tem que estar na Bíblia, eles simplesmente riem, zombam, escarnecem e debocham de tal crente, dizendo que “não tem que estar na Bíblia coisa nenhuma”! Afinal, no dia em que os católicos inventarem de tomarem a posição de Justino e “referir TODAS as coisas às Escrituras”, o catolicismo simplesmente vai às ruínas, bem como as suas “tradições” antibíblicas.

 

Será que os católicos referem todos os seus dogmas e todas as suas doutrinas à luz das Escrituras? Será que o papa que inventou há pouco mais de 50 anos atrás a “Assunção de Maria” se preocupou um pouquinho em “referir todas as coisas as Escrituras”?

 

O que poderíamos dizer quanto às outras centenas de doutrinas pagãs e antibíblicas de tal seita, incluindo a prática da “Santa” Inquisição, a venda de indulgências (pagar $ pelo perdão dos pecados), o limbo, o purgatório, a oração pelos mortos, a confecção de imagens para prestação de culto e honra, a imaculada conceição de Maria, o batismo infantil e por aspersão, dentre outras inúmeras pseudo-doutrinas romanistas que, na sua maioria, os próprios padres confessam não se achar em lugar nenhum das Escrituras (mas apelam para a “tradição oral”), enquanto outras pessoas pagam o maior mico para se passarem pelo ridículo tentando provar todas essas asneiras nas Escrituras com uma passagem mais deturpada do que a outra?

 

Podemos concluir que o que Justino escreve é, portanto, o golpe de morte nos embustes papistas que visam não referir todas as coisas às Escrituras (mas baseiam-se na fragilidade de uma suposta “tradição oral”), não tem o menor cuidado de pedir a ela os seus argumentos e demonstrações, e muito menos deixam de lado as suas tradições e doutrinas humanas que eles seguem.

 

Convenhamos: se a Igreja primitiva fosse como a católica romana, que afoga as Escrituras pelos seus dogmas e diz que não precisa estar na Bíblia e se apoia nas suas próprias tradições, será que Justino iria ser tão enfático em declarar que devemos ter o cuidado de referir todas as coisas às Escrituras?

 

Será que ele iria falar tão mal de “tradições” que formam “doutrinas humanas”, se eles estivessem fundamentados sobre a tradição, assim como é a ICAR nos dias de hoje? Será que um católico seria capaz de referir todos os seus dogmas, doutrinas, argumentos e demonstrações às Sagradas Escrituras? É claro que não!!! Para o maior desespero dos católicos, além do fato de que TODAS as doutrinas devem ter por base a referência das Escrituras, vemos que é SOMENTE a partir dela que nós temos o nosso fundamento:

 

“Não temos algum mandamento de Cristo que nos obrigue a crer nas tradições e nas doutrinas humanas, mas SOMENTE naquelas que os bem-aventurados profetas promulgaram e que Cristo mesmo ensinou, e eu tenho cuidado de referir todas as coisas às Escrituras e pedir a elas os meus argumentos e as minhas demonstrações” (Justino Mártir, Diálogo com Trifão)

 

É óbvio que o “SOMENTE” aqui não está em nada relacionado às “tradições” ou “doutrinas humanas” (que Justino vigorosamente as condena), mas sim às “Escrituras” pelas quais devem ser “referidas todas as coisas”. Este paralelismo nos deixa claro e evidente que é SOMENTE AS ESCRITURAS a regra de fé e doutrina dos primeiros cristãos. É por isso que Justino, ferrenhamente anticatólico, fazia questão de realmente referir TODAS as coisas com base nas Escrituras e à luz dela:

 

“Mas agora, por meio dos conteúdos das Escrituras estimada santa e profética entre vós, eu tentar provar tudo o que eu tenho apresentado, na esperança de que algum de vocês possa ser encontrado para ser parte do remanescente, que foi deixado pela graça do Senhor dos Exércitos, para a salvação eterna” (Diálogo com Trifão, Cap.32)

 

“É uma coisa ridícula... que quem funda o seu discurso nas Escrituras proféticas deva abandoná-las e abster-se de referir constantemente as mesmas Escrituras, por pensar que ele próprio pode prover algo melhor do que a Escritura” (Diálogo com Trifão 85:5)

“Ele disse que via uma escada, e a Escritura declara que Deus se erguia sobre ela. Mas que este não era o Pai, o demonstramos pelas Escrituras... E que a rocha simbolicamente proclamava Cristo, o demonstrámos também por muitas Escrituras (Diálogo com Trifão 86:2-3)

 

“Eu desculpo e perdoo você, meu amigo, pois você não sabe o que dizes, mas foram persuadidos pelos professores que não entendem as Escrituras, e você fala, como um adivinho, o que vem em sua mente” (Diálogo com Trifão, Cap.9)

 

Você está familiarizado com eles, Trifão? Elas estão contidas em suas Escrituras, ou melhor, não a sua, mas nossa. Para nós acreditamos nelas, mas, apesar de você lê-las, não captura o espírito que está nelas” (Diálogo com Trifão, Cap.29)

 

“Porque Cristo é Rei e Sacerdote, é Deus e Senhor, tanto dos anjos como dos homens, é capitão, é a pedra, e nasceu como filho, e pela primeira vez foi sujeito ao sofrimento, e em seguida retornou para o céu e, novamente, vindo com glória,  Ele é anunciado como tendo o reino eterno: assim que eu provo de todas as Escrituras (Diálogo com Trifão, Cap.34)

 

Revertendo as Escrituras, eu devo me esforçar para convencê-lo que aquele que se diz que apareceu a Abraão e Jacó, e Moisés, e que é chamado de Deus, é diferente daquele que fez todas as coisas, numericamente” (Diálogo com Trifão, Cap.56)

 

”Eu poderia ter provado a vocês a partir das Escrituras que um desses três é Deus, e é chamado de Anjo” (Diálogo com Trifão, Cap.56)

 

”Eu estou inteiramente convencido de que nenhuma Escritura contradiz outra, e você deve se esforçar para convencer aqueles que imaginam que as Escrituras são contraditórias, em vez de ser da mesma opinião que eu (Diálogo com Trifão, Cap.65)

 

“Esteja bem certo, então, Trifão, que está estabelecido no conhecimento e fé nas Escrituras, das falsificações que aquele que é chamado diabo realizou entre os gregos” (Diálogo com Trifão, Cap.69)

 

“E por esse motivo que estou, através do medo, muito sincero no desejo de conversar com os homens de acordo com as Escrituras, mas não com os que tem amor ao dinheiro, ou de glória, ou de prazer” (Diálogo com Trifão, Cap.82)

 

É digno de nota que sempre Justino insistia em dizer que em todos os termos doutrinários era necessário provar nas Escrituras aquilo que ele estava dizendo. Note que ele nunca aduz a “procurar na tradição”, mas somente nas Escrituras (=Sola Scriptura), que eram sempre o pilar e fundamento da nossa fé.

 

Se existissem doutrinas ocultas na Escritura Sagrada, então Justino não iria insistir tanto em dizer que aquilo que ele mesmo dizia deveria ser provado pela Escritura. Afinal, para que tamanha necessidade e obrigação de “provar algo nas Escrituras” se, como os católicos insistem em dizer, tem um monte de doutrinas “por aí” que simplesmente não se encontram na Bíblia??? Neste caso, seria inútil tal necessidade de ter que provar todas as doutrinas por “muitas Escrituras”, pois os próprios católicos são contra isso!

 

“Mas que isso não era o Pai, temos de provar nas Escrituras (Diálogo com Trifão, Cap.86)

 

“E que a pedra proclamava simbolicamente Cristo, temos também que provar por muitas Escrituras (Diálogo com Trifão, Cap.86)

 

Note o termo: temos que provar”; remete a uma necessariedade. Para que tal necessariedade, se os católicos estão mais do que convictos de que não há tão necessidade, tendo em vista a suposta “insuficiência” das Escrituras e que muitas doutrinas não estão nela? Se o pensamento católico está com a razão, qual seria a verdadeira finalidade em ser absolutamente necessário as provas por muitas Escrituras acerca do tema doutrinário que está sendo tratado? Por que Justino simplesmente não faz como os católicos, dizendo que não tem que estar na Bíblia coisa nenhuma e que não existe tal necessidade de alguma doutrina específica estar na Bíblia?

 

Essas perguntas atormentam a mente dos pobres bispos católicos, pois se eles quiserem realmente responder honestamente a estas perguntas, irão direta ou indiretamente remeterem ao conceito básico da Sola Scriptura, abrindo mão de seus conceitos contra a suficiência da Bíblia. Note também que a questão que está sendo tratada aqui não é se aquele assunto em questão está ou não está na Bíblia, mas sim do porque que é NECESSÁRIO “ter que provar” pelas Escrituras, se nem todas as doutrinas precisam mesmo estar nelas. Neste caso, ainda que houvesse uma passagem bíblica sobre isso, Justino poderia fazer como os católicos e simplesmente dizer que:

 

“E que a pedra proclamava simbolicamente Cristo, vamos mostrar nas Escrituras, embora não haveria necessariedade disso

 

Infelizmente Justino nem escreveu assim e nem deixou simplesmente a passagem bíblica em foco, como também fez questão de ressaltar que era necessário que tal coisa se encontrasse nas Escrituras. A questão é que eles tinham que provar por muitas Escrituras!

 

Finalmente, para concluirmos todas as esmagadoras evidências que encontramos nas obras de Justino, vemos que o próprio Justino repudia a si mesmo caso provasse algo por meio de doutrinas ou argumentos humanos. Neste caso, ele próprio afirma que não deveríamos concordar com ele. Pelo que, então, deveríamos concordar com Justino naquilo que ele diz? Adivinhe!

 

“Se eu me comprometo a provar isso por doutrinas ou argumentos humanos, você não deve concordar comigo. Mas se eu citar com freqüência as Escrituras, e pedir-lhe para compreendê-las, você é duro de coração no reconhecimento da mente e da vontade de Deus. Mas se você deseja permanecer para sempre assim, eu não seria ferido a todo e para sempre mantendo o mesmo parecer que eu tinha antes de eu me encontrei com você, vou te deixar” (Diálogo com Trifão, Cap.68)

 

Com as citações frequentes das Escrituras! Qual é a conclusão de tudo isso? Certamente que, assim como vimos, todas as doutrinas devem ter por base e fundamento a Escritura, que todas as doutrinas devem ser referidas a ela cuidadosamente, que temos que prova-las por meio de “muitas Escrituras”, demonstrando através das Escrituras “tudo o que temos apresentado”! Por ser, portanto, a autoridade máxima e suprema em toda a regra de fé e doutrina, é óbvio que Justino não poderia deixar de dizer, CLARA E EXPLICITAMENTE, a suficiência das Escrituras:

 

“Agora, então, tornar-nos a prova de que este homem que você diz que foi crucificado e subiu aos céus é o Cristo de Deus. Para você ter suficientemente provado por meio das Escrituras já citadas por você, que é declarado nas Escrituras que Cristo devia sofrer e entrar novamente na glória, e receber o reino eterno de todas as nações, e que cada reino esteja subordinado a Ele: agora mostram-nos que este homem é ele” (Diálogo com Trifão, Cap.39)

 

“Mas você me parece não ter ouvido as Escrituras o que eu disse que tinha apagado. Para tal como foram citadas são mais do que suficiente para provar os pontos em disputa, além daqueles que são mantidas por nós, e ainda serão apresentados” (Diálogo com Trifão, Cap.73)

 

As Escrituras são mais do que o SUFICIENTE para provar os pontos em disputa! Já imaginou um católico, daqueles típicos que escarnecem dizendo o tempo todo que “a Escritura não é suficiente” e que as doutrinas só são completas e suficientes com a “ajudinha” da “tradição” (estes dizem com todo ar de orgulho, arrogância e prepotência que ‘a Bíblia é INSUFICIENTE’!), confessarem um dia que a Escritura é MAIS DO QUE SUFICIENTE para provar os pontos em disputa???

 

Bom, enquanto eles vão meditando com os ótimos ensinamentos do anticatólico Justino, podemos afirmar com certeza que se apegar as Escrituras é suficiente para estar seguro em todos os aspectos. Sim, nós não somos insuficientes com a Escritura. Nós não somos inseguros se tivermos apenas a Escritura para nos guiar, porquanto se apegar as Escrituras significa estar seguro em TODOS os aspectos, como Trifão diz a Justino:

 

“Eu comentei com o senhor, que está muito ansioso para ser seguro em todos os aspectos, uma vez que você se apega as Escrituras (Diálogo com Trifão, Cap.80)

 

Sendo que é bem claro aqui que se apegar as Escrituras faz o homem seguro em TODOS os aspectos, então é óbvio que o aspecto doutrinário não está excluso deste quadro. Já pensou um cristão dizendo que a Escritura faz o homem seguro em TODOS os aspectos, se justamente o aspecto mais importante de todos (o doutrinário) está simplesmente excluso deste quadro???

Neste caso, obviamente a Escritura não nos faria seguro em TODOS os aspectos, mas apenas em ALGUNS aspectos, sendo que o PRINCIPAL aspecto – o aspecto doutrinário – ela seria insuficiente! É evidente, desta forma, que “todos os aspectos” inclui o mais importante aspecto que é o DOUTRINÁRIO. Desta forma, é possível concluirmos como Justino - que se apegar as Escrituras significa fazer o homem suficientemente seguro em todos os aspectos. Aleluia!

Passaremos agora para as evidências da Sola Scriptura que são encontradas nos escritos do latino Tertuliano, de Cartago. Ele, assim como os demais pais da Igreja de sua época, rejeitava a “tradição oral” que incluísse alguma doutrina que não se encontrasse na Escritura ou que não fosse claramente deduzido a partir dela. Foi ele quem disse uma das mais fortes declarações contra a autencidade das tradições orais e em favor daquilo que está escrito:

 

“Mostre-nos a escola de Hermógenes que o que ela ensina está escrito: se não está escrito, trema em vista do anátema fulminado contra aqueles que acrescentam à Escritura, ou tiram alguma coisa dela” (Tertuliano, Contra Hermógenes, cap. 22)

 

Essa enfática declaração não nos deixa com outra alternativa senão admitirmos que, para Tertuliano, era absolutamente necessário que um determinado ensino se encontrasse nas Escrituras, ou senão ele repreende com um “anátema fulminado contra aqueles que acrescentam algo a Escritura ou tiram alguma coisa dela”!

 

O fato de algo não estar escrito nas Escrituras remete necessariamente em acrescentar algo a ela. Os católicos não confessam, mas sabem que acrescentam inúmeras doutrinas às Escrituras, que não estão contidas nela, pois pensam encontrar-se na “tradição oral”.

 

Tertuliano repudia totalmente tal atitude, com um “anátema [maldição] fulminante”, e mostrando o princípio de que a doutrina de seus oponentes tem que estar nas Escrituras – não existe choro e nem berra, pois estar fora dela significa estar dentro da anátema! Quanto a isso, creio nem ser necessário explanar o fato de que os romanistas nunca, jamais, e em circunstância alguma aceitariam uma coisa dessas, pois não creem que todas as doutrinas estão escritas, e vão procurar muitas doutrinas “lindas e maravilhosas” fora dela, sem ter medo de tirar ou acrescentar algo que não existe na Bíblia.

 

Os católicos não “tremem” por algo não estar escrito, simplesmente porque quase NADA das “doutrinas” deles está escrito! Tudo é baseado naquilo que NÃO está escrito, naquilo que SUPOSTAMENTE foi “transmitido oralmente”, e que eles ainda imaginam que foi transmitido incorruptivelmente até nós nos dias de hoje.

 

Mal sabem eles que deveriam tremer se algo não está escrito, que estão em anátema e que estão acrescentando e tirando algo das Escrituras! Tertuliano é, assim, um dos mais claros sobre os princípios básicos acerca da Sola Scriptura dentre os pais do segundo século. Para ele, o ensino tem que estar nas Escrituras, pois do contrário está acrescentando ou tirando algo dela, estando em anátema fulminado! O que significa isso? Sola Scriptura!!!

 

Também existem outras declarações suas que corroboram fortemente com isso, incluindo algumas citações que remetem (diretamente ou indiretamente) a este princípio cristão:

 

“Muito bem! Você diz, eu te desafio a pregar deste dia em diante (e isto também, com a autoridade destas mesmas Escrituras) dois Deuses e dois Senhores, conforme sua própria visão. Deus proíbe (é minha resposta). Pois nós, que pela graça de Deus possuímos um discernimento sobre os tempos e as ocasiões das Sagradas Escrituras, especialmente nós que somos seguidores do Paracleto, não de mestres humanos, de fato declaramos definitivamente que Dois Seres são Deus, o Pai e o Filho, e com a adição do Espírito Santo, até mesmo Três, de acordo com o princípio da economia divina, que introduz número, para que não se possa crer que o próprio Pai, como vocês perversamente inferem, tenha nascido e sofrido, o que não é permitido crer, desde que não foi nos passado assim” (Contra Práxeas, 13)

 

A pregação deveria ser feita com base na “autoridade destas mesmas Escrituras”, porque não existe confiabilidade na tradição oral. Evidentemente Tertuliano não iria exigir que tal ensino tivesse que estar dentro da autoridade das Escrituras se um monte de doutrinas cristãs nem estão na Bíblia, como os católicos dizem! Como é que Tertuliano iria exigir que o ensino estivesse fundamento na autoridade das Escrituras, se ele mesmo (como cristão) cresse que existem muitas doutrinas que nem estão nas Escrituras? Neste caso, seria inútil e impreciso que tal ensino tivesse que estar dentro das Escrituras!

 

É óbvio que tal ensino (independente do teor) deveria estar dentro da autoridade das Escrituras, simplesmente porque todas as doutrinas devem passar pelo crivo Escriturístico. Se as doutrinas pudessem ter chegado com ou sem a harmonia das Escrituras, então seria ridículo que fosse necessário que tal ensino estivesse sob a autoridade das Escrituras, uma vez sendo que as doutrinas não precisariam estar dentro dela! Assim, os católicos serão obrigados a admitir que existia um critério na igreja primitiva para uma doutrina ser considerada aceita: estar com a autoridade destas mesmas Escrituras! Isso explica porque uma doutrina não poderia ser aceita senão que fosse dada a eles através das Escrituras:

 

“Certamente não se poderia crer até mesmo nestas coisas mesmo do Filho de Deus, a menos que elas fossem dadas a nós nas Escrituras (Contra Práxeas, 16)

 

Uma doutrina não poderia ser aceita a não ser que ela fosse dada a nós nas Escrituras!!! Isso nos deixa ainda mais claro e evidente que uma doutrina tem que estar dentro das Escrituras para ser considerada verdadeira. Fora dela, não haveria segurança e nem confiança digna de crédito ou respeito. Tertuliano é muito bem claro na sua afirmação categórica de que uma doutrina só pode ser aceita se for dada a nós através das Escrituras! O que é isso, senão Sola Scriptura???

 

Ora, esta é a única conclusão que podemos chegar, simplesmente não existe outra. Os católicos não conseguirão mudar o fato de que as doutrinas só são admitidas se estão nas Escrituras; portanto, a Escritura é a única regra de fé e doutrina cristã. Os cristãos não admitiam doutrinas a não ser que elas fossem dadas através das Escrituras!!!

 

De que adianta uma “tradição” que coloca doutrinas não-bíblicas dentro de alguma igreja em particular, se todas as doutrinas devem estar nas Escrituras? Não faz senso. A única lógica é de que a Escritura deve ser o padrão doutrinário supremo e absoluto na vida dos cristãos, assim como era com Tertuliano. Mas não para por aqui. Tertuliano afirma também que a Escritura é SUFICIENTE, novamente contrariando a tal da “insuficiência das Escrituras” tão propagada entre os papistas. Assim como Justino, Tertuliano pregava que:

 

“Nos deixe felizes em dizer que Cristo morreu, o Filho do Pai; e deixe isto ser suficiente, porque as Escrituras nos disseram assim (Contra Práxeas, 29)

 

Fica muito claro que a Escritura é suficiente, pois através dela uma doutrina pode ser considerada como fidedigna e verdadeira. Isso é suficiente... porque as Escrituras nos disseram assim, e não porque chegou a nós através de uma “tradição” não-escrita! Ademais, Tertuliano ainda continua dizendo sobre a AUTORIDADE das Escrituras, deixando entender que se tratava de um PADRÃO de autoridade máxima que os cristãos deveriam seguir, tão grande quanto o próprio apóstolo:

 

“Pois mesmo o apóstolo, em sua declaração - que ele não faz sem sentir o peso dela - que "Cristo morreu", imediatamente adiciona, de acordo com as Escrituras", para que ele possa aliviar a dureza da declaração pela autoridade das Escrituras, e assim remover a ofensa do leitor” (Contra Práxeas, 29)

 

Depois de tudo isso, alguém ainda poderia dizer que Tertuliano pregou algo sobre a tradição que não se encontrava na Bíblia. Isso é verdade; porém, eles infelizmente se esquecem completamente de que tais tradições não eram em termos doutrinários ou de ensino, mas sim de meros costumes. Não era uma tradição tal como a dos católicos, que corrompem as Escrituras e anulam o mandamento de Deus para dar lugar às suas vãs tradições passadas oralmente. Sobre isso, Tertuliano diz:

 

 “Todas as vezes que iniciamos ou terminamos alguma coisa, todas as vezes que entramos ou saímos de casa, quando nos vestimos, nos calçamos, vamos tomar banho, nos pomos à mesa, acendemos as luzernas, vamos para a cama, nos sentamos, qualquer que seja a ocupação para a qual nos preparamos, façamos frequentemente na nossa testa um pequeno sinal da cruz. Para estas e outras semelhantes praxes da disciplina cristã, se tu pretendes normas bíblicas, não encontrarás nenhuma. Sobre a sua fonte te será antes mostrado a tradição que causou a origem delas, o costume que motivou a continuidade delas e a fidelidade que leva a observá-las” (Tertulliano, La Corona [ De Corona] , Roma 1980, 3-4; pag. 153,155)

 

Perceba que todas essas práticas que Tertuliano diz não se encontrarem explicitamente nas Escrituras são todas elas meros costumes, e não doutrinas! Ora, existe uma enorme diferença entre doutrinas e costumes, se é que os católicos sabem disso. Doutrinas teológicas devem necessariamente estar contidas em nossa única e verdadeira regra de fé, a Escritura Sagrada.

 

Porém, alguns costumes que não afetam em absolutamente nada a nossa salvação e que não tem ligação doutrinária podem ser praticados, como é o caso que Tertuliano faz com o “sair de casa”, as vestes, o “tomar banho”, o se “por a mesa”, o “acender as luzernas”, dentre outras semelhantes praxes da disciplina cristã, que não são doutrinas, mas sim COSTUMES, como ele faz questão de observar lá no final.

 

Em outras palavras, Tertuliano não está negando o princípio da Sola Scriptura e muito menos dizendo que existem doutrinas que não estão na Bíblia. Ele apenas se refere a um ou outro costume que de doutrinário não tem nada e que não se encontra nas Escrituras explicitamente. Por exemplo, qualquer evangélico que crê na Sola Scriptura pratica o “sair e entrar em casa”, se vestem, tomam banho e acedem a luz. Isso qualquer protestante faz naturalmente e sem deixar de modo nenhum de acreditar na Sola Scriptura!

 

Nenhum evangélico precisa abrir mão da Sola Scriptura para sair de casa ou tomar um banho! Portanto, tais costumes em absolutamente NADA afetam o fato da Sola Scriptura, pois o princípio da Sola não é que todos os COSTUMES se encontram na Bíblia, mas sim que todas as DOUTRINAS se encontram nela. A Escritura contém tudo o que precisamos no tangente à SALVAÇÃO, para sermos irrepreensíveis à vista de Deus e lhe obedeçamos perfeitamente. Wayne Grudem definiu a suficiência das Escrituras da seguinte maneira:

 

“A suficiência da Escritura significa que a Escritura continha todas as palavras de Deus que ele pretendeu que seu povo tivesse em cada estágio da história redentora, e que agora ela contém tudo o que precisamos que Deus nos diga para nossa salvação, para confiarmos nele perfeitamente e para que lhe obedeçamos perfeitamente” (Wayne Grudem, Teologia Sistemática, Ed. Vida Nova)

 

A conclusão que nós chegamos é que todas as doutrinas se encontram na Bíblia, mas alguns costumes como esses (passados por Tertuliano) podem não se encontrar diretamente nela; sem, contudo, contrariar a Sola Scriptura, pois não se trata de questões doutrinárias e muito menos que sejam importantes para a salvação do ser humano.

 

Ninguém em sã consciência iria negar viajar de avião porque “o avião não está na Bíblia”! É óbvio que mesmo um seguidor da Sola Scriptura pode perfeitamente viajar de avião (mesmo sem o avião estar na Bíblia) porque isso não afeta em nada a Sola Scriptura, que evidentemente não se refere a costumes (como viajar de avião, tomar banho, se por a mesa e se vestir, etc), mas sim a doutrinas teológicas fundamentais para a salvação.

 

Ou seja, a Sola Scriptura é absolutamente aplicável dentro disso que Tertuliano disse, assim como qualquer outro evangélico praticaria sem o menor problema! Os católicos que usam esta passagem (e outras semelhantes) nos escritos dos pais para provar a validade da tradição só mostram não saber nada quanto à diferença fundamental entre COSTUMES e DOUTRINAS, eles misturam as duas coisas porque muitas vezes é proibido pensar no catolicismo.

 

É extremamente importante mostrar tal passagem de Tertuliano sobre a tradição, pois quase sempre quando os pais falam sobre a “tradição” é neste sentido, isto é, de meros costumes ou de informações históricas, mas não sobre doutrinas que não se encontram nas Escrituras.

 

Por isso mesmo é preciso prestar sempre muita atenção a estes sites católicos que passam uma lista aparentemente “assustadora” de passagens isoladas de Patrística que falam da tradição, que podem chegar a surpreender algum boboca que não consegue diferenciar entre os tipos de “tradição” existentes, e pode cair em uma cilada por causa disso. Veremos mais à frente como que a tradição citada por Irineu é algo com suporte bíblico, e como que a tradição citada por Eusébio se limita a conhecimentos puramente históricos.

 

Nenhuma delas se refere a algo que os católicos romanos criaram mais tarde para suportar as heresias deles, de uma tradição antibíblica e doutrinária, que não se encontra nas Escrituras e que nem pode ser aduzido a partir dela. Veja que Tertuliano não citou uma lista de doutrinas praticadas que não se encontram nas Escrituras, colocando como exemplo o purgatório, o limbo, a intercessão dos santos, todos os “títulos” de Maria ou a sua “assunção” aos céus. Ele não faz uma lista de nenhuma dessas doutrinas, porque de fato não existia nenhuma lista de DOUTRINAS não-bíblicas, mas apenas uma lista de COSTUMES que não se encontram expressamente nela.

 

Se existisse uma lista de DOUTRINAS que não se encontram nas Escrituras, então Tertuliano certamente passaria para nós; afinal, isso seria de tão extrema importância muito mais do que os meros costumes! Por que razão Tertuliano cita apenas costumes, mas nunca doutrinas? Simplesmente porque, de fato, não existiam doutrinas fora das Escrituras, e por isso apenas costumes são referidos na lista de Tertuliano. Qualquer católico, por exemplo, se lhe fosse pedido fazer uma lista das tradições romanistas, iria começar com todas as doutrinas e dogmas que eles chegaram através da tradição.

 

Muito provavelmente a lista se resumiria a tais dogmas e doutrinas, podendo talvez ter alguma coisa sobre costumes. Evidentemente na religião católica as doutrinas que chegaram através de tradição ficam em primeiro lugar porque elas são muitas e formam o pilar do catolicismo. Eles JAMAIS se “esqueceriam” de mencionar as doutrinas e dogmas na lista de tradições!

 

Tertuliano, contudo, faz questão de ressaltar apenas alguns COSTUMES que eram tradição. Ele não fala NADA sobre doutrinas (o que seria certamente muito mais importante, valioso e relevante do que os costumes), porque realmente as DOUTRINAS não se encontram na tradição, mas sim na Bíblia.

 

É essa a conclusão mais razoável que podemos chegar através do fato de que ele cita apenas costumes e não doutrinas que fossem de grande maior relevância e que poderiam ser perfeitamente aplicadas ali. Note que Tertuliano cita nominalmente oito dos costumes dos cristãos (tradição), e sumaria o resto dizendo sobre outras SEMELHANTES praxes da DISCIPLINA cristã”, sobre os “COSTUMES que motivou a observá-las”.

 

Evidentemente esse SEMELHANTES não pode se tratar de DOUTRINAS, mas sim de OUTROS COSTUMES. Tertuliano não diz que além dos costumes também existiam “DOUTRINAS CRISTÃS” legadas somente pela tradição que não se encontra na Bíblia. Ao contrário, ele alega que as outras tradições que eles seguem são SEMELHANTES àquelas recém mencionadas por ele.

 

Ou seja, se trata evidentemente de outros COSTUMES observados, e não sobre questões doutrinárias! Com efeito, vemos nestes trechos de Tertuliano não apenas que a alegação católica é claramente falsa e inválida, mas também a comprovação de que não existiam doutrinas não-bíblicas incluídas nas tradições cristãs, mas apenas meros costumes.

 

Isso liquida completamente com as pretensões romanistas que insistem em dizer que existia uma “tradição apostólica doutrinária e extra-bíblica” que foi “transmitida oralmente” nos primeiros séculos até os dias de hoje, porque já em pleno segundo século AD vemos a confirmação de que essa “tradição” não tinha nada a ver com doutrinas extra-bíblicas, mas apenas com costumes.

 

Outro dos mais influentes pais da igreja primitiva que iremos analisar é Orígenes. Ele escreveu, em sua obra “De Principii”:

 

“Em terceiro lugar, os apóstolos nos manifestaram o Espírito Santo, associado em honra e dignidade ao Pai e ao Filho. Nisto, porém, já não se distingue manifestamente se o Espírito Santo é gerado ou não gerado, ou se deve ser tido também ele mesmo como Filho de Deus ou não. São estas coisas que devem ser investigadas com o melhor de nossa capacidade através de uma cuidadosa busca a partir das Sagradas Escrituras (Cap.4)

 

Aqui vemos uma clara declaração de que é através de uma cuidadosa busca a partir das Sagradas Escrituras que uma determinada questão doutrinária em específica é fundamentada. Note que Orígenes, assim como os demais pais, não aduzem em momento algum a uma suposta “tradição oral” na qual eles poderiam perfeitamente fundamentar-se (caso elas realmente existissem); ao contrário, é apenas à Escritura que ele se refere como fazendo uma cuidadosa busca.

 

Convenhamos: se a fonte de fé dos cristãos nos primeiros séculos não fosse somente as Escrituras, mas também uma tradição com igual valor e importância, não seria conveniente que Orígenes fizesse “cuidadosa busca” a partir dela também? Com certeza; mas este não é o caso! Um pouco mais a frente, nesta mesma obra abordada, Orígenes diz o seguinte:

 

“Importa, portanto, que use destas coisas como de elementos e fundamentos, segundo o mandamento que diz: "Iluminai-vos pela luz da ciência", todo aquele que deseje construir uma série e um corpo de razões de todas estas coisas, para investigar por meio de afirmações manifestas e necessárias o que haja de verdade em cada uma delas, e edificar um corpo de exemplos e afirmações a partir do que tiver encontrado nas Sagradas Escrituras (Cap.10)

 

Vemos, portanto, que é a partir do que temos encontrado nas Escrituras que podemos edificar o corpo com exemplos e afirmações práticas. Novamente, quando a questão chega a sua fase doutrinária, vemos a “tradição” simplesmente evaporando na cena. Fica muito claro que doutrinas são fundamentadas sobre aquilo que tiver sido encontrado nas Sagradas Escrituras! Orígenes também é o autor de várias outras declarações, tais como:

“Quem vem instruído na música de Deus, sendo um homem sábio em palavra e obras, como outro Davi... apresentará o som da música de Deus, tendo aprendido deste a pulsar as cordas no tempo correto, ora as cordas da Lei, ora as cordas do Evangelho em harmonia com elas, e novamente as cordas Proféticas e, quando a razão o exige, as cordas Apostólicas que estão em harmonia com as Proféticas, e de igual modo as Apostólicas com aquelas dos Evangelhos. Pois ele sabe que toda a Escritura é um instrumento de Deus perfeito e harmonizado, o qual a partir de diversos sons liberta uma voz de salvação para aqueles dispostos a aprender, que detém e restringe toda a obra de um mau espírito, tal como a música de Davi punha a repousar o espírito mau em Saul, o qual também o estava sufocando. Vemos, então, que ele é em terceiro lugar um pacificador, que vê de acordo com a Escritura a paz de toda ela, e implanta esta paz naqueles que buscam corretamente e fazem distinções adequadas num espírito genuíno” (Sobre a unidade e harmonia das Escrituras)

 

Veja que é a Escritura um instrumento de Deus “perfeito e harmonizado”, e que “liberta uma voz de salvação”. Ora, como dizer que a Sagrada Escritura é insuficiente para a salvação do ser humano, sendo que Orígenes afirma que é exatamente ela o instrumento perfeito utilizado por Deus para libertar a voz de salvação aos homens?

 

Como ela pode ser considerada insuficiente, se este mesmo Orígenes afirma que ela é perfeita e harmonizada? Isso realmente não faz lógica, a não ser que fôssemos deduzir mais uma vez que Orígenes, assim como os demais pais da igreja, faziam menção ao princípio da Sola Scriptura em contraste direto com as tradições não-bíblicas, e do clero católico que afirma que a Escritura é insuficiente.

 

Note também que Orígenes, além de induzir à suficiência das Escrituras, também declara que um homem sábio em palavras e em obras deve estar em harmonia com os Evangelhos, com os Profetas e com os Apóstolos. Orígenes está claramente aqui impondo uma ordem claramente Escriturística: (1) Lei; (2) Profetas; (3) Evangelhos; (4) Apóstolos. É precisamente esta a ordem presente na Sagrada Escritura, e Orígenes diz que devemos estar em harmonia com elas.

 

Como Orígenes teria dito isso, se a igreja primitiva supostamente “católica romana” praticava inúmeras doutrinas que simplesmente não tem harmonia com as Escrituras??? É evidente que tal harmonia só ocorre em caso que os próprios cristãos não se desviassem da harmonia presente nas Escrituras (Lei+Profetas+Evangelhos+Apóstolos).

 

Em toda a Patrística, eu desafio os romanistas a irem buscar qualquer documento histórico da Igreja primitiva que com certeza absoluta não encontrarão nenhuma declaração categórica de alguém que tenha dito tal asneira de que “a Sagrada Escritura é insuficiente”! Já vimos claras declarações com respeito à suficiência dela, algumas claramente e diretas e outras que podem ser feitas por inferência e um raciocínio lógico e indutivo. Vejamos mais algumas declarações de Orígenes com relação à Escritura Sagrada e a sua perfeita harmonia e suficiência como autoridade máxima e suprema de fé e prática. Ele escreve dizendo:

 

“Não observo que seja grandemente confirmado pela autoridade da sagrada Escritura; ao passo que, em relação aos restantes dois, se encontra um considerável número de passagens nas sagradas Escrituras que parecem passíveis de ser-lhes aplicados” (De Principii, 4)

 

Note que Orígenes nega receber algum ensinamento que não tenha base Escriturística. Primeiramente ele diz que não observa que aquilo seja confirmado pela autoridade da Sagrada Escritura (então ele repudia tal ensino). Em seguida, ele analisa outros dois restantes que, por sua vez, se encontra um considerável número de passagens nas Sagradas Escrituras; então, Orígenes diz que aqueles sim seriam possíveis de serem aplicados! É muito claro e evidente aqui um princípio básico de aceitação doutrinária: Se o ensino não é confirmado pela autoridade máxima da Escritura, ele é repudiado; mas, se é confirmado por um considerável número de passagens bíblicas, então é possível de ser aplicado!

 

O que isso significa? Significa simplesmente que é impossível que um ensino seja aplicável a não ser que haja um considerável número de passagens nas Sagradas Escrituras que confirme isso! Isso evidentemente exclui os ensinamentos papistas da parada, porquanto não existe um “considerável número de passagens nas Sagradas Escrituras” que os confirmem; seguindo-se, portanto, que eles não seriam possíveis de serem aplicados na teologia da igreja primitiva, na visão de Orígenes. O que Orígenes diz é realmente muito simples:

 

(1) Ou o ensino é confirmado pela autoridade da Sagrada Escritura por um considerável número de passagens, e neste caso é possível de serem aplicados.

 

(2) Ou então não é possível ser-lhe aplicados, se não se encontra este considerável número de passagens nas Sagradas Escrituras, pois não estaria sendo confirmado pela autoridade suprema da Sagrada Escritura.

 

Isso nos deixa muito claro que só é possível uma doutrina ser aplicada caso se encontre na Bíblia. Se não, vou usar a mesma expressão usada por Tertuliano: “trema diante do anátema fulminado contra aqueles que acrescentam algo a Escritura, ou tiram dela alguma coisa”!

 

Orígenes tem sempre o cuidado de referir um considerável número de passagens das Sagradas Escrituras que podem ser aplicadas, porque fora dela não se está na verdade, mas sim no erro. Ele diz também:

“Ora, tudo isto, como sublinhámos, foi feito pelo Espírito Santo para que, vendo que aqueles eventos que jazem na superfície não podem ser nem verdadeiros nem úteis, possamos ser guiados à investigação daquela verdade que está oculta mais profundamente, e à afirmação de um significado digno de Deus naquelas Escrituras que cremos inspiradas por Ele (De Principii, 4:15)

“O Espírito Santo, porém, não cuidou apenas, desta forma, as Escrituras compostas até ao advento de Cristo; mas sendo um e o mesmo Espírito, e procedendo de um mesmo Deus, procedeu de igual modo com os evangelistas e apóstolos” (De Principii, 4:16)

“Ao passo que a divindade de Jesus é estabelecida tanto pela existência das Igrejas dos salvos, como pelas profecias expressas concernentes a Ele, e pelas curas produzidas em Seu nome, e pela sabedoria e conhecimento que há n`Ele, e as verdades mais profundas que são descobertas por aqueles que sabem como ascender de uma fé simples, e investigar o significado que subjaz nas Escrituras divinas, conforme as admoestações de Jesus, que disse ‘Esquadrinhai as Escrituras’ e o desejo de Paulo, que ensinou que ‘devemos saber como responder a todo o homem’, sim, e também de quem disse ‘estai sempre preparados para dar um resposta a todo aquele que vos pedir a razão da fé que há em vós.’” (Contra Celso III, 33)

 

Creio que não seja mais necessário mostrarmos como que Orígenes, sem medo de errar, buscava sempre colocar como fundamento as Escrituras que deveriam ser “esquadrinhadas” e que fariam o homem preparado para dar resposta a qualquer que pedir a razão da esperança que nele há. Infelizmente para os católicos, essa esperança e fé vêm através das Escrituras, e não por meio de alguma tradição extra-bíblica que alguém alegue possuir.

 

Note também que, mesmo se este outro fato fosse levado em consideração, qual seria a tradição correta a seguirmos? Ora, a própria tradição da Igreja Católica do Oriente é bem diferente da tradição da Igreja Católica do Ocidente, seguindo-se, portanto, que certamente muitas “tradições” se corromperam em meio a este processo. Os católicos querem grifar meia dúzia de passagens encontradas na Patrística para dizerem que devemos seguir a tradição; mas, neste caso, qual seria a tradição que deveríamos seguir?

 

A tradição dos ortodoxos ou a dos romanos, que são amplamente divergentes entre si? Sendo que os pais apenas se preocupavam em escrever sobre a “tradição”, por que razão deveríamos presumir que os ortodoxos estão equivocados (se são tão antigos quanto os próprios romanos) e apenas os romanos que estão corretos em suas “tradições”?

 

Ora, certamente o romanista não terá algum “argumento” para sustentar isso, mas apenas falácias e mais falácias e um desespero emocional em tentar denegrir a tradição dos ortodoxos para colocar a sua no lugar, sem critério nenhum. Pergunte aos ortodoxos se o purgatório existe. Pergunte a eles se a tradição oral deles diz que o limbo existe. Pergunte a um ortodoxo se Maria foi assunta aos céus. Pergunte a um ortodoxo se o bispo romano tem primazia universal sobre todas as demais comunidades e se possui a infalibilidade doutrinária. Pergunte a eles, e você verá que as suas “tradições” dizem coisas completamente inversas com relação a Roma.

 

Isso já deveria se esperar tendo em vista tradições corrompidas e adulteradas ao longo dos séculos (ou tradições que nem sequer passaram a existir um dia e que foram posteriormente inventadas por algum sujeito, às vezes até pelo próprio papa), mas certamente não deveria se esperar em caso que as tradições fossem plenamente confiáveis e seguras em seu todo. Elas não são simplesmente “interpretadas diferentemente”, mas são diretamente contraditórias.

 

Algo é muito diferente de outro, e nos mostram que, ainda que Orígenes ou qualquer outro pai falasse sobre as tradições de sua época, isso não resolveria em nada a questão, até o dia em que eles conseguissem provar também que as tradições deles que são as corretas, que as dos ortodoxos estão erradas (exatamente nos pontos que discordam da Igreja Romana) e que as tradições orais são plenamente seguras e confiáveis. Essas coisas nunca um católico, por mais prepotente ou seguro que seja, conseguirá responder honestamente e sem rodeios. Mas vamos retornar ao nosso estudo central sobre os escritos dos pais e continuar com o massacre de Orígenes contra a catequese:

 

“Para tratar de tantas e tais coisas não basta confiar a sumidade deste assunto aos sentidos humanos e à inteligência comum, discorrendo, por assim dizer, visivelmente sobre as coisas invisíveis. Devemos tomar também, para a demonstração das coisas de que falamos, os testemunhos das Divinas Escrituras. No entanto, para que estes testemunhos possam oferecer-nos uma fé certa e indubitável, tanto nas coisas que haveremos de dizer, como nas que já dissemos, parece-nos ser necessário mostrar antes que as próprias Escrituras são divinas, isto é, inspiradas pelo Espírito de Deus. Mostraremos, tão brevemente quanto pudermos, o que as próprias Escrituras nos dizem a este respeito e que nos possa mover competentemente. Falaremos, pois, de Moisés, o primeiro legislador do povo hebreu, e das palavras de Jesus Cristo, autor e príncipe da religião e do dogma dos cristãos” (De Principiis, Livro IV, Cap.1)

 

“Feito este breve comentário sobre a inspiração das Sagradas Escrituras pelo Espírito Santo, parece-nos agora necessário explicar por que motivo alguns, ignorando o caminho pelo qual se alcança o entendimento das letras divinas, não as lendo corretamente, caíram em tantos erros (De Principiis, Livro IV, Cap.8)

 

“Deve fazê-lo, primeiro, para que os mais simples sejam edificados pelo próprio corpo das Escrituras, por assim dizer. É deste modo que chamamos ao entendimento comum e histórico. Se, porém, eles já começam a adiantar-se um pouco, de tal modo que possam entender algo mais profundamente, que sejam edificados também pela própria alma das Escrituras (De Principiis, Livro IV, Cap.11)

 

Aqui vemos primeiramente que devemos tomar para demonstração daquilo que dizemos os testemunhos das Divinas Escrituras. Em segundo lugar, que as próprias Escrituras são divinas (inspiradas pelo Espírito Santo). Em terceiro lugar, ver o que a Escritura diz a respeito. Em quarto lugar, provada a inspiração divina das Escrituras, devemos ler ela corretamente. E, em quinto lugar, devemos ser, assim, edificados pelo corpo das Escrituras. Ora, todo este processo seria profundamente desnecessário em caso que a única fonte de fé dos cristãos não fosse a Escritura Sagrada.

 

Em primeiro lugar, seria desnecessário Orígenes ter que primeiro colocar os fundamentos da inspiração da Escritura para depois fundamentar aquilo que ele mesmo estava dizendo. Por que simplesmente não “confiar na tradição”? Vemos que Orígenes se preocupava em demonstrar aquilo que ele dizia através dos testemunhos da própria Escritura e, desta forma, precisava provar que ela era divina, isto é, que ela é inspirada pelo Espírito de Deus. Tudo isso seria desnecessário em caso que a tradição tivesse valor doutrinário igual e paralelo às Escrituras.

 

Neste caso, Orígenes certamente ocuparia o seu tempo também para colocar as bases da tradição (assim como ele fez com a Escritura), provando também que a tradição era sagrada ou divina e que se fundamentava também nela para demonstrar aquilo que ele dizia. Contudo, tal simplesmente não acontece, e o único fundamento de Orígenes era a Escritura (=Sola Scriptura), pelo que ele se preocupava em estabelecer as bases dela como as suas próprias bases de demonstração doutrinária.

 

Ele segue estar ordem para, enfim, dizer que nós somos edificados pelo corpo (ou “alma”) das Escrituras, pois é ela a nossa autoridade máxima e suprema de fé e doutrina e, desta forma, é nela e por meio dela que nós somos edificados espiritualmente. Se isso tudo não for “Sola Scriptura”, então que o papista em questão se levante para demonstrar aonde foi que Orígenes perdeu o tempo dele tendo que provar a origem e autoridade da tradição, dizendo que ela é sagrada, mostrando que ela é divina, que é inspirada por Deus, e que demonstrava as suas teorias com base numa tradição extra-bíblica e que era edificado pelo corpo e alma da tradição!

 

Mais à frente vemos Orígenes fazendo declarações ainda mais fortes, como que a Sagrada Escritura foi o instrumento concedido por Deus para a salvação dos homens:

 

“Assim como o homem é dito ser constituído de corpo, alma e espírito, assim também o é a Sagrada Escritura que pela liberalidade divina foi concedida para a salvação dos homens (De Principiis, Livro IV, Cap.11)

 

A Sagrada Escritura foi o instrumento concedido por Deus para a salvação dos homens!!! Orígenes também diz:

 

“No entanto, se em todas as coisas desta roupagem, isto é, se em tudo o que se encontra na história da lei, fossem guardadas as conseqüências e conservada a ordem, de tal modo que nela a inteligência pudesse conservar um curso contínuo de entendimento, não acreditaríamos que pudesse haver mais nada inserido mais profundamente nas Sagradas Escrituras do que isto que nos é manifestado na sua superfície (De Principiis, Livro IV, Cap.15)

 

As Escrituras são tão suficientes, mas tão suficientes, que nada poderia estar inserido mais profundamente nela, além daquilo que já está manifestado em sua superfície! Ora, seguindo a “lógica” católica de que a Escritura é insuficiente e existem muitas doutrinas que não se encontram na Bíblia (nem superficialmente e nem profundamente), Orígenes jamais poderia ter dito que nada poderia estar inserido “mais profundamente” nela além daquilo que já está, se realmente os cristãos guardavam “tradições” doutrinárias que não estão na Bíblia em lugar nenhum!!!

 

A lógica complementar nos diz que, se nada poderia estar inserido nas Escrituras além daquilo que já está, então logicamente o que está nela já nos é o suficiente. E isso factualmente aniquila com as pretensões católicas de dizer que as várias doutrinas e dogmas de sua “Igreja” não se encontram na Bíblia porque ela é insuficiente! É por isso que a verdade mais alta se encontra nas Escrituras:

 

“Tudo isto, conforme dissemos, o Espírito Santo buscou para que, na medida em que o que está na superfície não possa ser verdadeiro ou útil, rapidamente fôssemos chamados à busca de uma verdade mais alta e procurássemos nas Escrituras, que cremos inspiradas por Deus, um sentido digno de Deus (De Principiis, Livro IV, Cap.15)

 

É procurando nas Escrituras que encontramos a “verdade mais alta”. Cremos que, se essa “verdade mais alta” só se encontra através de uma cuidadosa busca através das Escrituras inspiradas de Deus, então consequentemente essa mesma Escritura deve ser fonte de doutrina suficiente para conter as verdades acerca de Deus e do Seu Reino. Por isso, não devemos ser guiados pela vileza das palavras, mas sim pela inteligência das letras divinas, que sabemos que foi o Espírito Santo quem as inspirou:

 

“Exortados assim brevemente pela própria lógica e coerência do assunto, embora nos tenhamos estendido um pouco, seja suficiente o que dissemos para mostrar que há algumas coisas cuja significação não pode ser explicada por nenhum discurso da língua humana, mas que são declaradas por uma inteligência mais simples do que as propriedades de quaisquer palavras. A esta regra deve ater-se também a inteligência das letras divinas, e considere-se o que se diz não pela vileza da palavra, mas pela divindade do Santo Espírito que inspirou quem as escreveu (De Principiis, Livro IV, Cap.27)

 

Outro influente pai da Igreja primitiva foi Irineu de Lyon. Dele procedem várias afirmações que iremos analisar a seguir. Algumas delas são usadas pelos católicas, outras pelos protestantes. Como evidentemente Irineu não era bipolar e nem poderia entrar em contradição consigo mesmo e dentro de um mesmo e único livro, temos que achar um consenso se ele realmente cria que a Sagrada Escritura era suficiente para a salvação, ou se ela era um livro qualquer. Ele disse:

 

"O verdadeiro conhecimento é a doutrina dos Apóstolos, e a antiga constituição da Igreja em todo o mundo, e a manifestação distinta do Corpo de Cristo conforme as sucessões dos bispos, pelas quais eles transmitiram aquela Igreja que existe em todos os lugares, e chegou até nós, sendo guardada e preservada sem nenhuma falsificação nas Escrituras, por um sistema muito completo de doutrina, e sem receber adição nem subtração; e a leitura [da Palavra] sem falsificação, e uma exposição lícita e diligente em harmonia com as Escrituras, sem perigo nem blasfémia, e o preeminente carisma do amor, o qual é mais precioso do que o conhecimento, mais glorioso do que a profecia, e que excede todos os outros dons" [Adv Haer IV, 33,8]

 

É por demais óbvio a partir disso que uma doutrina deveria estar em diligente harmonia com as Escrituras para ser considerada como verdadeira. Isso não acontece coma  igreja de Roma simplesmente porque eles subtraem as Escrituras pelas tradições humanas que eles possuem, suplantando a autoridade máxima e suprema das Sagradas Letras. Irineu, sem hesitação, afirma que a Escritura chegou guardada e preservada sem nenhuma falsificação, e que possui um sistema COMPLETO de doutrina. Preste atenção nesta declaração de Irineu: “...por um sistema MUITO COMPLETO de doutrina...”.

 

Isso é um “xeque-mate” nas pretensões romanistas, uma vez sendo que, a Bíblia sendo um sistema COMPLETO DE DOUTRINAS, elimina as chances ou possibilidades de ser um livro doutrinariamente insuficiente e incompleto. Afinal, como pode um livro em particular ser um sistema MUITO COMPLETO DE DOUTRINA se ele não possui a totalidade das doutrinas de Deus? Se existem pontos doutrinários importantes que não estão contidos na Bíblia, mas estão ocultados dela, por que razão Irineu iria escrever que justamente a Escritura era este “sistema completo”?

 

Será que os católicos sabem mesmo o que significa este: “COMPLETO”??? Creio que não. Mas o mais significativo não é simplesmente a ignorância dos católicos quanto aos escritos de Irineu e essa insistência tola em retirar de seus escritos apenas aquilo que lhes convém (quando ele fala um pouco sobre a tradição, o que veremos mais a seguir), mas sim o fato deles ignorarem absolutamente todas as outras evidências no escrito deste mesmo indivíduo, que prova que a Escritura não é um sistema doutrinariamente incompleto e que as doutrinas devem estar em diligente harmonia a ela. No mais, Irineu afirma isso ainda mais claramente, quando disse:

 

"De nada mais temos aprendido o plano de nossa salvação, senão daqueles através de quem o evangelho nos chegou, o qual eles pregaram inicialmente em público, e, em tempos mais recentes, pela vontade de Deus, nos foi legado por eles nas Escrituras, para que sejam o fundamento e pilar de nossa fé" [Irenaeus, "Against Heresies" 3.1.1, p. 414.]

 

Note duas coisas principais aqui neste texto: Em primeiro lugar, que não houve ‘acréscimos’ doutrinários desde que os apóstolos começaram a anunciar a mensagem do evangelho. Isso é muito relevante, pois os católicos constantemente adicionaram doutrinas ao longo dos séculos, desde a fundação da Igreja Romana como centralizada no poder, até pleno século passado, com as suas milhares de invencionices e doutrinas que são totalmente ocultas em séculos anteriores.

 

Irineu não disse que o evangelho ou a doutrina apostólica estaria sujeita a acréscimos ao longo dos séculos (como a Igreja católica fez e continua fazendo até hoje), mas sim que ele estava FECHADO, não sujeito a ACRÉSCIMOS, pois de nada eles tinham aprendido quanto ao plano de salvação senão através de que o evangelho nos chegou! Em segundo lugar, a declaração de Irineu ali  no final do verso mata toda a charada: A Escritura é o fundamento e pilar de nossa fé! Aleluia!!!

 

Infelizmente os católicos nunca poderão tomar a mesma atitude que Irineu, dizendo que a Sagrada Escritura é o pilar e o fundamento da fé deles, porquanto eles estão presos ao Magistério da igreja deles que adiciona mais e mais doutrinas, e também à “tradição” que cada vez mais não se farta em suplantar a autoridade das Escrituras.

 

A Escritura não é nem de perto a autoridade máxima e suprema para os católicos, porque divide lugar com estes outros dois e, para os católicos, está no mesmo nível e patamar, embora alguns outros tenham mais vergonha na cara em admitir abertamente que a tradição tem realmente valor maior do que a própria Bíblia.

 

Portanto, para os católicos a Escritura NÃO é (e nem poderia ser um dia) o pilar e fundamento da fé deles, pois isso seria o maior golpe de morte nos seus dogmas, uma vez sendo que colocar a Escritura Sagrada como autoridade máxima e suprema significa suplantar a tradição que não tem base Escriturística; ou seja, que não respeita essa autoridade suprema e que não está em total harmonia com ela.

 

Para os católicos, a Escritura Santa NÃO é O pilar e fundamento da fé deles, mais é UM dos pilares, ATRÁS do Magistério e da Tradição, e NÃO é o fundamento, pois eles estão fundamentados sobre a chamada “tradição apostólica”. Note que Irineu não disse que a Escritura é “UM” dos pilares, mas sim que é “O” pilar; e para acentuar ainda mais este fato, ele continua dizendo também que ela é O fundamento. Em momento NENHUM Irineu diz que a Escritura é um dos pilares ou apenas um dos fundamentos, muito menos que divida um lugar secundário com alguma outra regra de fé e prática.

 

Pelo fato de que, como ele mesmo afirmou, a Escritura é um “sistema COMPLETO de doutrinas” e que as doutrinas devem estar “em diligente HARMONIA com as Escrituras”, é evidente que as Escrituras devem ser O fundamento e O pilar da fé cristã! Quando a questão são doutrinas, não existe outro pilar, e nem existe outro fundamento senão as Escrituras.

 

Irineu não diz que “a Escritura é o pilar e a TRADIÇÃO é o fundamento”, e menos ainda que “a tradição é o pilar e fundamento”. Uma linguagem mais clara do que essa eu creio que seria impossível. Apenas me surpreende ver que ainda existem uns católicos presos dentro de uma bolha de ignorância, insistindo em deturpar os escritos de Irineu a favor deles, quando na verdade Irineu é um dos maiores fundamentalistas da Sola Scriptura na Igreja Primitiva.

 

Irineu assinala que, após a integração à Igreja, afirma que estaremos fundamentados nas Escrituras:

“Convém-nos, portanto, evitar as suas doutrinas, e prestar cuidadosa atenção, não seja que soframos algum dano por elas; e fugir para a Igreja, e ser criados em seu seio, e ser nutridos com as Escrituras do Senhor (Adv Haer V, 20,2)

 

Por que Irineu não disse que, após fugirem para a Igreja, os cristãos estariam sendo nutridos com a Escritura e com a tradição, se a tradição realmente tem um valor a par das Escrituras e com verdades diferentes dela? Por que a “nutrição” não vem a partir da tradição, mas somente das Escrituras? Ora, Irineu repudia o caráter das “tradições orais”, como vemos claramente a seguir:

 

“Eles [gnósticos] alegam que a verdade não foi entregue por meio de documentos escritos, mas de viva voz (Contra as Heresias, Livro III, 2:1)

 

Fica muito claro aqui que, dado o devido repúdio de Irineu às teorias gnósticas, ele levava em consideração não aquilo que não foi entregue por documentos escritos, mas sim aquilo que chegou a nós por meio daquilo que foi escrito. Isso fica muito claro e evidente no texto, pois Irineu despreza a vã tradição oral dos gnósticos, que não colocavam a sua fé naquilo que foi escrito, mas sim naquilo que foi transmitido oralmente.

 

O sentido é muito claro:

 

“...Alegam que a verdade não foi entregue por meio de documentos escritos [como pregam os cristãos], mas de viva voz [como pregam os gnósticos]

 

Irineu aqui marca o contraste claro entre a crença fundamental dos cristãos – aquilo que foi entregue por meio de documentos escritos – e a crença fundamental dos gnósticos – a tradição oral. Este contraste nos deixa claro e evidente que Irineu considerava os documentos escritos como sendo a coluna da fé, e não aquilo que foi transmitido de viva voz.

 

Se ele cresse que a verdade está baseada naquilo que foi entregue por documentos escritos e TAMBÉM naquilo que foi entregue por viva voz, jamais deixaria claro tal contraste que só serviria para fundamentar também as ideias dos gnósticos, ao invés de derrubá-los. Porém, a intenção de Irineu ao longo de todo o seu livro era combater (e não fortalecer) as crenças dos gnósticos (para isso ele fez o livro: “Contra as Heresias”; também chamado de “Contra a heresia gnóstica”).

 

É como se Irineu estivesse dizendo:

 

“Nós [cristãos] cremos que a verdade foi entregue por meio de documentos escritos; enquanto eles [gnósticos] pregam que a verdade foi deixada por viva voz...”

 

Os cristãos colocavam a sua fé naquilo que está escrito, enquanto os gnósticos, ao contrário, colocavam a fé deles naquilo que não está escrito! Quem os católicos mais se parecem? Com os cristãos ou com os gnósticos? Qual é o meio pelo qual eles mais “fundamentam” as doutrinas deles? A tradição oral ou a Escritura Sagrada? Obviamente, a primeira e não a segunda. Vamos nos aprofundar mais um pouco naquilo que Irineu diz sobre essa tradição oral deles:

 

Leem coisas que não foram escritas e, como se costuma dizer, trançando cordas com areia, procuram acrescentar às suas palavras outras dignas de fé, como as parábolas do Senhor ou os oráculos dos profetas ou as palavras dos apóstolos, para que as suas fantasias não se apresentem sem fundamento. Descuidam a ordem e o texto das Escrituras e enquanto lhes é possível dissolvem os membros da verdade. Transferem, transformam e fazendo de uma coisa outra seduzem a muitos com as palavras do Senhor atribuídas indevidamente a fantasias inventadas (Contra as Heresias, Livro I, Parte 1, 8:1)

 

Note que, além do tradicional repúdio à tradição oral, ele ainda faz questão de deixar claro que é nas Escrituras que os cristãos se fundamentam, pelo o que ele diz que os gnósticos “descuidam da ordem e do texto das Escrituras”. Ele não aponta alguma outra tradição dos cristãos que os gnósticos supostamente a ignorassem, mas aponta inteiramente a Escritura como sendo isso que os gnósticos descuidam em vista de seu atrevimento em dizer que  existem doutrinas não escritas e dignas de igual confiança com as Escrituras. Curiosamente, os católicos cumprem perfeitamente todas as características dos gnósticos do século II:

 

1. Leem e tomam como regra de fé coisas que não foram escritas.

2. Acrescentam às Escrituras outras coisas, atribuídas indevidamente a fantasias inventadas.

3. Descuidam, desta forma, da ordem e do texto das Escrituras.

 

Simplesmente um quadro perfeito e exato!!!

 

Irineu afirma que isso significa acrescentar palavras que não se encontram nas Escrituras, como vemos a seguir:

 

“São, pois, fúteis, ignorantes e presunçosos os que rejeitam a forma sob a qual se apresenta o evangelho, ou introduzem no evangelho um número de figuras maior ou menor do que o referido (Contra as heresias, III, 11,9)

 

Os gnósticos, com a sua tradição oral, introduziam no evangelho um número de figuras maior ou menor do que o que é realmente referido. Isso significa que é preciso seguir as Escrituras se quisermos de fato guardar exatamente aquilo que é referido, sem “descuidar da ordem e do texto das Escrituras”, pois as tradições orais podem acrescentar ou tirar coisas que a Escritura afirma. Para Irineu, o fato de Deus ser glorificado está diretamente relacionado a reconhecer as Escrituras verdadeiramente divinas:

 

“Quando se reuniram com Ptolomeu e confrontaram entre si as suas traduções, Deus foi glorificado e as Escrituras foram reconhecidas verdadeiramente divinas, porque todos, do início ao fim, exprimiram as mesmas coisas com as mesmas palavras, de forma que também os pagãos presentes reconheceram que as Escrituras foram traduzidas sob a inspiração de Deus” (Contra as Heresias, Livro 3, 21:2)

 

Quando foi que Irineu chamou a “tradição oral” de “DIVINA”? Em absolutamente lugar nenhum!!! Ora, era a Escritura que Deus preparou para fundar a nossa fé em Cristo:

 

“As Escrituras, pelas quais Deus preparou e fundou a nossa fé em seu Filho, foram, pois, traduzidas com tanta fidelidade, pela graça de Deus, e conservadas, em toda a sua pureza, no Egito, onde se tornou grande a família de Jacó” (Contra as Heresias, Livro 3, 21:3)

 

É pelas Escrituras que Deus fundou a nossa fé em Jesus! Aleluia!!! A nossa fé é preparada pelas Escrituras; a nossa fé é fundamentada e fundada nas Escrituras! Como é que a fé dos cristãos poderia estar FUNDAMENTADA NAS ESCRITURAS, se eles supostamente observavam uma sequencia enorme de doutrinas que nem fazem parte dela??? Alguém poderia estar FUNDAMENTADO em algo que não segue absolutamente? Creio que não! Ora, o que está fora do fundamento simplesmente desmorona e se acaba. Desta forma, se as Escrituras eram o “fundamento” dos cristãos, então não haviam doutrinas fora dela (ou seja, fora do fundamento), o que simplesmente iria leva-los a total ruína.

 

É por isso mesmo que a base da refutação dos cristãos contra a heresia gnóstica era a Escrituras:

 

“Revelam-se verdadeiramente impudentes e temerários os que agora pretendem fazer outra tradução, quando nós os refutamos com estas mesmas Escrituras e os obrigamos a crer na vinda do Filho de Deus” (Contra as Heresias, Livro 3, 21:3)

 

Antes de terminar o estudo sobre as obras de Irineu de Lyon, vale a pena passar aqui também aquela famosa passagem utilizada pelos romanistas, para elucidarmos todo o caso, assim como foi feito com aquela outra passagem de Tertuliano sobre a tradição. Vejamos qual é esse “carro-forte” dos católicos:

 

“Então passamos a apelar para a tradição que vem dos apóstolos e se conserva nas igrejas pelas sucessões dos presbíteros, opõem-se à tradição”

 

Aparentemente poderíamos dizer que Irineu estava fazendo apologia à chamada “tradição oral” pregada no catolicismo. Mas, quando observamos mais atentamente aquilo que é dito dentro de seu devido contexto, vemos que essa “tradição” não era algo que se diferenciasse das próprias Escrituras. Irineu revela isso quando faz menção a carta de Clemente aos Coríntios, dizendo que Clemente tinha anunciado aos Coríntios:

 

 “...A tradição que tinha recebido recentemente dos apóstolos...”.

 

Agora basta descobrirmos o que é essa tal “tradição”. Ele [Clemente de Roma] elucida que os bispos estavam ensinando como “tradição” que há “...um só Deus Onipotente, Criador do céu e da terra, que modelou o homem, produziu o dilúvio, chamou a Abraão, fez sair seu povo do Egito, falou a Moisés, estabeleceu o regime da lei, enviou os profetas, preparou o fogo para o diabo e seus anjos...todos os que quiserem podem verificar segundo o mesmo documento”.

 

E prossegue dizendo que:

 

“Podem assim conhecer a tradição apostólica da Igreja...”

 

Perceba que aquilo que é referido como sendo a “tradição” não é em absolutamente nada diferente daquilo que está nas Escrituras! Vejamos também:

 

“Com efeito, não tivemos conhecimento da economia de nossa salvação por outros que não os pregadores do Evangelho. Este Evangelho, que eles primeiramente pregaram depois, pela vontade de Deus, eles nos transmitiram em Escrituras a fim de se tornar o fundamento e a coluna de nossa fé”

 

E também:

 

“E se os apóstolos não tivessem deixado quaisquer Escrituras, não se haveria de seguir a ordem da tradição que eles legaram aos mesmos aos quais confiaram as igrejas”

 

Note que é somente SE os apóstolos não tivessem deixado a Escritura que deveríamos seguir a tradição. Como os apóstolos evidentemente deixaram as Escrituras a nós, segue-se logicamente que não é necessário seguir a tradição, pois ela não difere substancialmente em nada em relação àquilo que pregam as Escrituras. Note que o termo “SE” mostra-nos uma condição: Seria somente SE não houvesse Escritura nenhuma, que seríamos obrigados a seguir a tradição.

 

Irineu não diz que devemos seguir uma tradição extra-bíblica e/ou não-bíblica, mas sim que, em caso que não nos fosse legado o pilar e fundamento da nossa fé – as Escrituras – seríamos obrigados a aceitar uma “tradição oral”. Nós, ENTRETANTO, temos a Sagrada Escritura, temos o pilar e fundamento da nossa fé! Qual é a conclusão? A conclusão inequívoca é que, sem estar na ausência deste pilar e fundamento de fé, temos tudo aquilo que precisamos dentro das Sagradas Letras, e que a tradição pregada na Igreja dos primeiros séculos não era em nada diferente dos ensinamentos presentes nas Escrituras.

 

Tradição significa “ensino” e, com efeito, podemos dizer que a “tradição apostólica” significa simplesmente aquilo que os apóstolos nos ensinaram, e que está presente nas Escrituras Sagradas que são o pilar e o fundamento da nossa fé. É óbvio que se este pilar e fundamento não existisse, seríamos obrigados a aceitar uma tradição oral insegura e confusa. Mas felizmente Deus nos deixou a Sagrada Escritura, e sendo o pilar e fundamento de nossa fé, é capaz de nos nutrir em todas as questões doutrinárias fundamentais para o doutrinamento e salvação.  Desta forma, vemos que o todo dos escritos de Irineu não contradiziam a Sola Scriptura; pelo contrário, a reforça poderosamente.

 

Outro dos pais da igreja que nós iremos analisar a partir de agora é Hipólito, bispo de Roma. Ele também escreveu sobre a Sola Scriptura nas seguintes palavras:

 

“O dito poderia ser convincente se em primeiro lugar as divinas Escrituras não o contradissessem (Fragmento de Hipólito, Eusébio, Hist Eccl V, 28, 4-6, 13-5, 18)

 

Hipólito deixa claro a prioridade das Escrituras ao declarar que, antes de qualquer outra consideração, é necessária a consulta às Escrituras a fim de determinar se determinada doutrina é verdadeira ou falsa. Como ela não se encontra nas Escrituras, então Hipólito, sem medo de errar, a rejeita absolutamente! Isso nos mostra de forma clara e lúcida que as Escrituras devem ser consultadas para a formulação de uma doutrina teológica. O dito poderia ser verdadeiro somente no caso que as Escrituras não o contradissessem! Isso evidentemente elimina todas as dezenas de tradições doutrinárias católicas não-bíblicas que, por sua vez, não encontram sequer uma única linha de evidência Escriturística para apoiá-las. Hipólito também disse:

 

Adulteraram sem escrúpulo as divinas Escrituras e violaram a regra da fé primitiva; e desconheceram Cristo por não investigar o que dizem as divinas Escrituras... Deixaram as santas Escrituras de Deus e se ocupam de geometria ... Mas os que se aproveitaram das artes dos infiéis para o desígnio da sua própria heresia e com a manha dos ímpios falsificaram a fé simples das divinas Escrituras, que necessidade há de dizer que já não estão perto da fé? Por esta causa puseram as suas mãos sem escrúpulo sobre as divinas Escrituras, dizendo que as tinham corrigido” (Fragmento de Hipólito, Eusébio, Hist Eccl V, 28, 4-6, 13-5, 18)

 

Aqui vê-se claramente que as divinas Escrituras eram A regra de fé da igreja primitiva. Note que Hipólito não diz que era UMA DAS regras de fé, mas sim A regra de fé! O que isso significa? R= Sola Scriptura!!! Ora, se Hipólito não cresse que a Escritura (que ele considera divina) como sendo a única regra de fé, então teria dito que a tradição era a regra de fé primitiva ou que, então, a Escritura era apenas “uma das” regras de fé da Igreja, junto à tradição oral.

 

Infelizmente para os católicos, nada mais junto à Escritura é mencionado como sendo “regra de fé”, e o uso do “A” ao invés do “UMA” nos deixa ainda mais evidente que a Escritura era, de fato, a norma única e exclusiva da igreja primitiva. Mais a frente vemos Hipólito dizendo que certos hereges deixaram de lado as Santas Escrituras de Deus para formularem doutrinas por outros meios (no caso, a geometria!), e desta forma falsificaram a fé simples das “divinas Escrituras”. Isso novamente nos deixa claro que a nossa fé está fundamentada sobre as Escrituras.

 

Não é uma fé “complexa” como os católicos pregam, em um sistema altamente burocrático onde precisa passar por um panteão de “santos” e “santas” para se chegar em Jesus Cristo (que, por sinal, não deveria fazer a mínima ideia do que você estava precisando) e para depois se chegar a Deus. Além disso, eles ensinam que se você for muito, mas muito “santo”, aí você vai pro céu. Se você for muito, mas muito pecador, aí você vai ficar eternamente no inferno. Mas, se você for “mais ou menos santinho”, você pode passar por um “purgatório” (olha só que legal, gente!).

 

Se isso não bastasse, ainda tem o tal do “limbo” (caso você seja um personagem do AT que não pode ver a Deus na sua plenitude durante algum tempo!), e acho melhor eu parar por aqui para a coisa não ficar ainda mais complicada! Perceba que tudo isso (e muitíssimas outras doutrinas heréticas) não vem através das Escrituras Sagradas, mas somente através da chamada “tradição oral” que eles alegam terem recebido e transmitido incorruptivelmente até os dias de hoje. Ou seja, eles complicaram e complexaram a fé simples que se encontra nas Sagradas Escrituras, exatamente aquilo que Hipólito mais condena!

 

Essa fé simples não se encontra na “tradição oral”, mas sim dentro das Escrituras Sagradas que o Senhor concedeu a nós como o pilar e fundamento de nossa fé. Tendo em vista isso, incluir doutrinas que não se encontram nas Escrituras não ajudam em nada para “melhorar” o evangelho bíblico, mas sim para complicar e dificultar essa fé simples que não se encontra em nenhum outro lugar, senão nas próprias Escrituras. Por isso mesmo, quem corrompe os sentidos das Escrituras ou adiciona algo que não está nela, pode certamente ser classificado como “pessoas com mão sem escrúpulo”! Certamente adicionar doutrinas estranhas à Bíblia Sagrada não é uma ideia lá das mais “inteligentes” para nós praticarmos...

 

Hipólito de Roma ainda diz:

 

"Justamente por não observarem as Sagradas Escrituras... é que os hereges criaram essas [ímpias] doutrinas" (Refutação de Todas as Heresias 1, Prefácio)

 

É por não observarem as Escrituras (e não por “ignorarem a tradição”) que os hereges estavam pervertidos em erros. Eles não estavam sendo condenados por Hipólito em não estarem sendo guiados na Bíblia e na Tradição, mas sim por não observarem as Sagradas Escrituras!

 

Na Apologia de Aristides de Atenas (outro pai da igreja primitiva), também lemos:

 

“E para que saibas, ó rei, que não digo essas coisas por minha própria conta, inclina-te sobre as Escrituras dos cristãos e verás que não estou dizendo nada além da verdade” (Apologia, 15:10)

 

Assim como Clemente, Aristides segue aquela mesma linha que diz para se “inclinar” sobre as Escrituras dos cristãos. Por que razão, causa, motivo ou circunstância que os pais SEMPRE se “esqueciam” de mencionar a tradição como sendo algo no qual os pagãos deveriam igualmente reverenciar; mas, ao contrário, mencionam sempre somente as Escrituras (=Sola Scriptura) como aquilo que deveríamos nos prostrar? Será que os católicos incluiriam somente as Escrituras como aquilo que deveríamos seguir com grande reverência? Certamente que não, mas uma coisa podemos dizer com certeza: os evangélicos, sim!!!

 

Fechamos o século II com Clemente de Alexandria, que disse:

 

"Para nós, que crescemos com as Escrituras, que preservamos a correta doutrina dos apóstolos e da Igreja, que vivemos de acordo com o Evangelho, é nos permitido descobrir as provas da Lei e dos Profetas que eles tanto buscam" (Stromata, 7, 104)

 

“Não me vás dividir ou separar o Emanuel em um homem e um Deus Verbo, não mo faças um ser de dupla personalidade. Porque senão estaremos incorrendo numa afirmação condenada pela Sagrada Escritura, não estaremos pensando corretamente (Diálogo sobre a Encarnação)

 

“Os seus filhinhos serão levados aos ombros e consolados ao colo, vem nas Escrituras (O Pedagogo, I, 21-24)

 

É pela Escritura que preservamos a correta doutrina dos apóstolos, não estaremos agindo corretamente se fizermos uma ação condenada por ela, e por isso somos incentivados a “ir nas Escrituras”, tal como Jesus disse:

 

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (Jesus Cristo, em João 5:39)

 

Vamos sair do segundo século e, agora, adentrarmos no terceiro e quarto século da igreja primitiva, estudando os escritos de muitos outros pais, tais como Agostinho de Hipona, Clemente de Alexandria, Jerônimo, Cirilo de Jerusalém, Gregório de Nissa, Basílio, Eusébio de Cesaréia, dentre outros importantes e influentes dentro da igreja primitiva.

 

 

-A Autoridade Suprema das Escrituras nos Séculos II e III

 

Vamos começar com o estudo dos escritos de Basílio de Cesaréia:

 

"Como você usufrui das Escrituras, não necessita nem de minha ajuda, nem da de ninguém para ajudá-lo a compreender o seu dever. Você tem o conselho todo-suficiente e orientação do Espírito Santo para levá-lo ao que é certo" (Epístola 283)

 

Que declaração mais bombástica para os católicos! Basílio afirma aqui que nós temos toda a suficiente orientação do Espírito Santo sem precisarmos de alguma orientação humana para compreendermos a Sagrada Escritura, o que vai frontalmente contra os princípios católicos de negação do livre-exame e da livre-interpretação da Bíblia. Mas como o que está em questão aqui não é o livre-exame ou a livre-interpretação, então vou me limitar aqui a comentar aquilo que tem relevância exclusivamente para o tema da Sola Scriptura.

 

Vemos que Basílio afirma que, por alguém usufruir das Escrituras, não necessita mais da ajuda de ninguém para ser edificado na fé! Se isso não significa a suficiência das Escrituras, então que um católico me explique devidamente o que é que significa, então! Ora, a suficiência das Escrituras é evidente, dado o fato de que ela, por si só e sem a ajuda de mais ninguém, já é o suficiente para que um cristão, sendo guiado e dirigido pelo Espírito Santo, esteja no caminho certo da verdade. Negar a suficiência das Escrituras aqui, significa contradizer de primeira aquilo que Basílio diz a nós nestes versos. Mais a frente vemos este mesmo autor escrevendo mais coisas sobre a Sola Scriptura. Vejamos:

 

“Mas, esta forma de dar glória nos é recusada, por não constar das Escrituras (Tratado sobre o Espírito Santo. Cap 67)

 

Uma coisa que não está presente nas Escrituras, é simplesmente recusada!!! Este é o golpe de morte nas teologias romanistas, que não estão presentes na Sagrada Escritura e que, mesmo assim, os católicos insistem em seguir cegamente. Uma doutrina só pode ser admitida se ela está, de fato, presente nas Escrituras! Novamente, o conceito de Sola Scriptura é evidente aqui: para uma doutrina ser considerada verdadeira ela deve passar pelo crivo Escriturístico, ou senão é rejeitada de primeira. Infelizmente as doutrinas católicas não se encaixam dentro do conteúdo presente nas Escrituras, seguindo-se, portanto, que dentro do conceito e princípio aplicado na Igreja primitiva do quarto século, elas seriam simplesmente rejeitadas, por não constarem nas Escrituras. Basílio ainda afirma:

 

“Mas, que vale combater por meio de humilde argumentação, obtendo uma vitória inglória para a doutrina, quando é possível apresentar exemplos mais honrosos para demonstrar a excelência irrefutável da glória do Espírito? Se repetimos o que aprendemos da Escritura, talvez logo os adversários do Espírito comecem a clamar com intensidade e veemência, tampem os ouvidos, apanhem pedras ou o que estiver a seu alcance, e cada qual, fabricando as próprias armas, nos atacará” (Tratado sobre o Espírito Santo, Cap.52)

 

É apenas repetindo o que aprendemos da Escritura que temos uma forma mais honrosa para demonstrar a excelência irrefutável da glória do Espírito Santo. De outro modo (sem repetir o que aprendemos da Escritura) seria apenas uma “vitória inglória para a doutrina”.

 

Isso novamente elimina as tradições romanistas que não repete aquilo que foi aprendido por meio das Escrituras, especialmente aquelas que possuem base apenas dentro de uma tradição, que por sua vez está fundamentada sobre outras tradições, que estão sob outras tradições, e tradições... e tradições... e tradições... e frequentemente a primeira tradição não está em ordem com as Sagradas Escrituras. Tais tradições doutrinárias que não encontram fundamento bíblico para o seu ensino devem ser simplesmente rejeitadas, de acordo com o próprio princípio aplicado dentro da Igreja primitiva cristã nos primeiros séculos de existência.

 

“Rejeitar alguma coisa que se encontra nas Escrituras, ou receber algumas coisas que não estão escritas, é um sinal evidente de infidelidade, é um ato de orgulho... o fiel deve crer com plenitude de espírito todas as coisas que estão nas Escrituras sem tirar ou acrescentar nada (Basílio, Lib. de Fid. -- regul. moral. reg. 80; citado por Luigi Desanctis em La tradizione, terceira ed. Firenze 1868, pag. 19)

 

Essa é provavelmente a linguagem mais clara que alguém poderia adotar para defender a Sola Scriptura. Basílio nos deixa bem claro que receber coisas que não estão escritas é um “claro sinal de infidelidade”. Por uma feliz coincidência, é exatamente isso o que os católicos mais fazem com os seus dogmas: incluem doutrinas que não foram escritas, mas que supostamente dizem terem sido transmitidas através de “tradição oral”, sem nem conseguirem provar a existência dessa tal “tradição oral”, quando menos a sustentabilidade ou incorruptibilidade dela! Para Basílio, contudo, receber coisas não escritas é sinal de infidelidade e um ato de orgulho. Ele deve somente receber as coisas que estão nas Escrituras. Nada a mais, nada a menos!

 

Como se isso não fosse suficientemente claro, ele ainda diz:

 

“Nisso eles não estão longe da verdade, pois o faço afirmar. Sua queixa é que o costume deles não aceita isso, e que a Escritura não concorda. Qual é a minha resposta? Eu não considero justo que o costume que eles têm entre eles deva ser considerado como uma lei ao Estado de ortodoxia. Se o costume é para ser tomado como prova do que é certo, então é certamente competente eu apresentar para o meu lado o costume que nós temos aqui. Se eles rejeitarem isto, nós claramente não somos obrigados a segui-los. Portanto, Deus inspirou a Escritura para decidir entre nós, e em qualquer lado ser encontradas doutrinas em harmonia com a Palavra de Deus, para ver em favor de que lado será o voto da verdade (Epístolas, 189:3)

 

Aqui vemos que, para Basílio, é a Sagrada Escritura o instrumento utilizado para definir doutrinas religiosas. Embora alguns quisessem usar como suposto “fundamento” os seus “costumes” (tradições) para decidir a questão, Basílio nega isso com veemência, dizendo que é na Escritura que nós encontramos as doutrinas, estando em harmonia com a Palavra de Deus, e é deste modo que nós vemos em qual lado que está a verdade! Ora, Basílio jamais teria dito isso caso cresse que muitas das doutrinas e “dogmas” da Igreja cristã primitiva não se encontravam nas Escrituras.

 

Afinal, como é que ele poderia colocar a Escritura como fonte da verdade para decidir as questões religiosas (tendo que estar em harmonia à ela), se eles mesmos supostamente seguissem inúmeras “doutrinas católicas” que, dizem eles, “não se encontram na Bíblia”, mas somente na tradição não-escrita? Neste caso haveria muitas doutrinas sem harmonia com as Escrituras, e ela não poderia decidir em que lado está a verdade, sendo que ela mesma não contém todas as verdades doutrinárias!

 

Isso seria o mesmo que dizer que um juiz tem poder de decidir com quem está a verdade em um julgamento, sendo que ele mesmo não conhece a história para saber com que lado está a verdade! Como um juiz desses, que não tem todo o conhecimento do caso, pode decidir a favor de alguma coisa? Da mesma forma, para a Escritura ser a base doutrinária dos cristãos que deviam estar em harmonia à ela, no mínimo ela deveria ser suficiente para isso; ou seja, ser suficiente em matéria de fé e doutrina.

 

Os católicos, ao invés de admitir isso, preferem bater na tecla em uma passagem isolada nos escritos de Basílio, em uma última tentativa mais que desesperada em tentar dizer que ele não cria na Sola Scriptura, mas que confiava na tradição oral para fundamentar as suas doutrinas não-bíblicas (i.e, que não se encontram nas Escrituras). Eis a tal passagem:

 

"Da dogmata e kerygmata, que são mantidas na Igreja, nós temos algumas do ensinamento escrito (εκ της εγγραφου διδασκαλιας), e algumas nós derivamos da paradosis Apostólica, que nos foram passadas en mistirio (εν μυστηριω). E ambas têm a mesma força (την αυτην ισχυν) em assuntos de piedade” (de Spir.S.,66)

 

Contudo, nem sequer os católicos mais sérios e de respeito admitem que essa passagem provaria que Basílio é auto-contraditório e que caía em contradição com as passagens claramente expressadas acima. Por exemplo, o erudito George Florovsky (1883 – 1979), arcipreste da Igreja Católica do Oriente (Ortodoxa), escreveu sobre isso no seu livro: “Sobre a Igreja e Tradição – Uma visão Ortodoxa Oriental”:

 

“À primeira vista, pode-se ter a impressão que São Basílio introduz aqui uma dupla autoridade e um duplo padrão—Escrituras e Tradição. Mas, na verdade, ele estava muito longe de fazer isso. Seu uso de termos é que é peculiar. Kerygmata era para ele o que no idioma posterior era usualmente entendido como ‘dogmas’ ou ‘doutrinas’ — um ensinamento e regras formais e autoritativos em matérias de fé, ensinamento aberto ou público. De outro lado, dogmata era o complexo total de ‘hábitos não-escritos’ (τα αγραφα των εθνων), ou, de fato, a estrutura toda da vida litúrgica e sacramental. Deve-se ter em mente que o conceito, e o próprio termo, ‘dogma’ não estava ainda fixo naquele tempo, não era ainda um termo com conotação estrita e exata” (George Florovsky - “Sobre a Igreja e Tradição”)

 

Note que Florovsky traça aqui um claro contraste entre as expressões utilizadas por Basílio ao se referir à Escritura e a tradição. No referente à Escritura, estavam ensinamentos e regras formais e autoritativos em matérias de fé. Por outro lado, em contraste, a “tradição”, embora também observada, não era em matéria de fé (Kerygmata), mas sim de hábitos.

 

Ou seja, novamente os costumes entram em cena. Mais uma vez, assim como já vimos com Tertuliano escrevendo sobre essa mesma “tradição” que não se baseava em doutrinas não-bíblicas, mas sim em costumes (hábitos), assim também Basílio se refere a tradição, não como regras em matéria de fé e doutrina que não se encontram no “pilar e fundamento de nossa fé” (Sagrada Escritura), mas sim como um “complexo total de hábitos não-escritos”.

 

Esses hábitos (ou costumes) podem ser perfeitamente observados, e até mesmo protestantes observam certos hábitos que são descritos por Tertuliano, entre os quais inclui-se o “entrar e sair de casa, se vestir, tomar banho, se por à mesa, acender as luzes, ir para a cama e nos sentar” (Tertuliano, La Corona), que são hábitos praticados por todo e qualquer protestante, sem com isso ferir em absolutamente nada o princípio de Sola Scriptura, que não é referente a hábitos e costumes, mas sim em termos de doutrina e salvação do homem. Se os evangélicos ensinassem que a Bíblia possui sozinha todos os hábitos, culturas e costumes que alguém deve praticar, então eu seria o primeiro a negar a Sola Scriptura.

 

Contudo, sendo que (como já vimos) dizer que somente a Escritura é a regra de fé não significa negar os costumes (como os citados acima por Tertuliano e Basílio), porque costumes não tem nada a ver com a salvação humana (ninguém vai ir pro inferno por não tomar banho e ninguém vai ir pro Céu por apagar as luzes antes de dormir, por exemplo), então essas práticas podem ser observadas (mesmo se não se encontrassem na Bíblia, mas sim em algum tipo de “tradição” ou cultura oriunda de algum lugar) sem com isso ferir em nada, mas nada mesmo, o princípio de que a Bíblia contém aquilo que é necessário para a nossa salvação e doutrinamento.

 

Os elementos que fazem uso de passagens como essas nos escritos de Tertuliano e Basílio (dentre outros autores) com o intuito de negar a Sola Scriptura por causa disso, só demonstram como que eles próprios não sabem nada do que significa a “Sola Scriptura”, e eles mesmos não devem perceber a diferença óbvia entre costume e doutrina, entre hábitos e culturas que não afetam a salvação e nem tampouco fazem parte do doutrinamento pessoal, que é encontrado nas Escrituras ou em algo que esteja em conformidade e harmonia à ela.  Com isso, toda a precipitação romanista em expor Basílio à uma contradição vai para o espaço. Basta uma simples exegese e hermenêutica para destrincharmos os mitos católicos que se opõe aos ensinamentos simples e claros encontrados nos escritos dos Pais da Igreja, em conformidade com o ensino da Sola Scriptura.

 

Passamos agora o nosso estudo a outro influente pai da Igreja primitiva, Jerônimo, o autor da famosa Vulgata Latina. Dele procede uma das mais fortes declarações a favor da Sola Scriptura, que veremos a seguir:

 

“Se vós quereis clarificar as coisas em dúvida, ide à lei e ao testemunho da Escritura; fora dali estais na noite do erro. Nós admitimos tudo o que está escrito, e rejeitamos tudo o que não está. As coisas que se inventam sob o nome de tradição apostólica sem a autoridade da Escritura são feridas pela espada de Deus (Jerónimo, In Isaiam, VII; In Agg., I; citado por Roberto Nisbet in op. cit., pag. 28)

 

Aqui Jerônimo expressa uma linguagem da qual é impossível ficar mais clara. É somente dentro da Escritura que estamos com a verdade, pois “fora dali estais na noite do erro”. Como é evidente que os católicos apoiam muitas de suas heresias doutrinas fora das Escrituras (na chamada “tradição oral”), então é por demais claro que eles estão, nestes aspectos, na “noite do erro”. É apenas e tão-somente dentro das Escrituras que nós não estamos na noite do erro!

 

Ademais, a sugestão de que as doutrinas podem ser baseadas naquilo que não está escrito é obviamente falsa, uma vez sendo que Jerônimo é muito bem claro em dizer que “nós admitimos tudo o que está escrito e rejeitamos tudo o que não está”. Ou seja, se a doutrina não possui base Escriturística (naquilo que “está escrito”), ela é simplesmente rejeitada logo de cara! Por fim, Jerônimo liquida com as pretensões romanistas ao dizer que existem coisas que são inventadas sobre o nome de “tradição apostólica”, mas que não estão dentro da autoridade máxima das Escrituras.

 

Tais coisas são feridas pela espada de Deus, pois nenhuma doutrina pode ser fundamentada fora das Escrituras, pois estaria fora da autoridade máxima em regra de fé e prática – ou seja, na noite do erro! Isso por si só já é um forte sinal de que em pleno século IV já havia na Igreja “tradições” inventadas, supostamente estando dentro de uma “tradição oral” transmitida pelos apóstolos, porém sem apoio Escriturístico, o que mostrava que essas “tradições” (sem harmonia com a Palavra de Deus) não passavam de invenções que seriam feridas pela espada de Deus.

 

Mas não é só aí que Jerônimo se baseia nas Escrituras para fundamentar as doutrinas, mostrando que o que está fora dela é “ferida pela espada de Deus”. Na sua obra “Contra Helvídio”, ele se baseia inteiramente dentro da Escritura a fim de elaborar extensivamente a sua refutação, mas nunca se apoia numa suposta base de “tradição oral”. Jerônimo afirma:

 

“Não desejamos entrar no campo da eloquência, nem usar de armadilhas lógicas ou dos subterfúgios de Aristóteles. Usaremos as reais palavras da Escritura; [Helvídio] será refutado pelas mesmas provas que empregou contra nós, para que possa ver que lhe foi possível ler conforme está escrito, e, ainda assim, foi incapaz de perceber a conclusão de uma fé sólida” (Contra Helvídio, Cap.2)

 

Veja que em momento nenhum ele diz: “Usaremos a Escritura e a tradição oral para refutá-lo!”; muito pelo contrário, a única base que ele se utiliza ao longo de toda a sua refutação é a Escritura Sagrada. Ora, se existisse uma suposta “tradição oral” correndo “por aí”, pela qual Helvídio já poderia ser totalmente refutado, não seria conveniente que ele fizesse uso dela também para elaborar a sua refutação? Mas é claro que sim. Jerônimo não iria deixar passar tão tamanha prova contra Helvídio, e certamente mencionaria que este estava indo contra a tradição histórica da Igreja, mostrando para ele os seus erros baseando-se na tradição, e não somente nas Escrituras.

 

Contudo, ele apenas faz questão de usar “as reais palavras da Escritura”, em conformidade daquilo que “está escrito”. Não seria surpresa, portanto, que somente a Escritura fosse a regra de fé e prática, uma vez sendo que é somente a Escritura que Jerônimo usa contra Helvídio! É por isso que ele tanto obrigava os seus oponentes a buscarem provas a partir das Escrituras, doutra forma seriam meramente “argumentos evasivos”:

 

“Minha razão para repetir sempre a mesma coisa é para adverti-lo para não fazer uma falsa afirmação, divulgando que eu deixei de lado tais passagens, como propícias a você, e que essa interpretação foi desfigurada e desfeita não pela evidência da Escritura, mas por argumentos evasivos (Contra Helvídio, Cap.14)

 

“Mas por medo, você pode levantar alguma objeção cavilosa, e se contorcer em seu aperto como uma cobra; assim devo imobilizá-lo rapidamente com as garantias de provas para fazê-lo parar de sibilar e murmurar, porque sei que você gostaria de dizer que está baseado não tanto na verdade da Escritura mas em complicados argumentos (Contra Helvídio, Cap.16)

 

Se Jerônimo cresse que alguma questão doutrinária em particular poderia ser desfeita sem usar a Escritura para isso (se baseando somente numa tradição não-escrita, por exemplo), certamente não teria dito que sem as evidências da Escritura estaremos caindo em argumentos evasivos. Afinal, os católicos não se apoiam nas Escrituras em muitos aspectos, e mesmo assim não querem que nós (cristãos) digamos que os “argumentos” deles são evasivos, certo? Portanto, se Jerônimo obriga que houvesse o fundamento das Escrituras, fica claro que é porque as doutrinas ou ensinamentos não podem passar longe dessas mesmas Escrituras:

 

“Você também lhe dá o nome de viúva, que não se encontra na Escritura (Contra Helvídio, Cap.15)

 

Por que Jerônimo faz questão que o nome da viúva estivesse presente nas Escrituras? Por que ele simplesmente não abre a possibilidade de Helvídio ter aprendido assim através da tradição oral, sem nenhuma necessidade de estar na Bíblia e mesmo assim com a mesma autoridade dela? A luz de tudo isso, não há sombras de dúvidas de que Jerônimo, que usava somente as Escrituras (=Sola Scriptura) nas suas refutações e que exigia somente nas Escrituras (=Sola Scriptura) o fundamento dos argumentos de seus oponentes, só poderia crer que somente as Escrituras (=Sola Scriptura) são o fundamento da fé!

 

Passaremos agora para o que pode ser classificado provavelmente como sendo o maior defensor da Sola Scriptura no século IV – Cirilo de Jerusalém. Seu nome é o de longe mais citado pelos apologetas protestantes de ontem e de hoje para provarem a Sola Scriptura nos escritos dos pais. Dele procedem várias afirmações que causam muita, muita dor de cabeça nos católicos, tais como essa aqui:

 

"Que este selo permaneça sempre em tua mente, o qual foi agora, por meio do sumário, colocado em teu coração e que, se o Senhor o permitir, daqui em diante, será elaborado de acordo com nossas forças por provas da Escritura. Porque, concernente aos divinos e sagrados Mistérios da Fé, é nosso dever não fazer nem a mais insignificante observação sem submetê-la às Sagradas Escrituras, nem sermos desviados por meras probabilidades e artifícios de argumentos. Não acreditem em mim porque eu vos digo estas coisas, a menos que recebam das Sagradas Escrituras a prova do que vos é apresentado: porque esta salvação, a qual temos pela nossa fé, não nos advém de arrazoados engenhosos, mas da prova das Sagradas Escrituras ("The Catechetical Lectures of S. Cyril" Lecture 4.17)

 

Uau!!!

 

Para não confundir os apologetas católicos-romanos de plantão, vamos apenas enumerar o que Cirilo dfiz nestas passagens acima:

 

1. As doutrinas seriam fundamentadas de acordo com as provas que são encontradas nas Escrituras.

 

2. Não podem fazer nem sequer a mínima observação sem submeter antes à autoridade das Escrituras.

 

3. Devemos crer somente naquilo que é recebido através das Escrituras como prova daquilo que é apresentado.

 

4. A salvação é pela fé e procede da prova das Sagradas Escrituras.

 

Agora vamos apenas listar como crê o catecismo católico:

 

1. As doutrinas e dogmas não são fundamentados de acordo com as provas encontradas nas Escrituras, mas fora dela, e usam como desculpa para as suas heresias inventadas a chamada “tradição oral”.

 

2. Muitas, muitas, muitas observações são feitas sem submeter antes à autoridade das Escrituras, e não apenas “mínimas observações”, mas também dogmas e doutrinas de grande importância para eles!

 

3. Não apresentam as “provas das Escrituras” porque não as tem.

 

4. A salvação é fé + obras, e procede da tradição + Escrituras + Magistério da Igreja e aquilo que o papa quiser inventar.

 

Este pequeno resumo das discrepâncias entre a crença dos pais primitivos para a crença papista do século XXI nos revela como que a Igreja involuiu (da crença da Sola para a “anti-Sola”), contrariando aquilo que é pregado hoje em dia pelos católicos. Mais a frente, naquela mesma obra, o bispo de Jerusalém reforça aquilo que já havia sido dito com grande clareza:

 

"Mas enquanto avanças naquilo que estudas e professas, agarra-te e sustentes apenas a esta fé, que pela Igreja é entregue a ti e é estabelecida a partir de toda Escritura. Por nem todos poderem ler a Escritura, sendo uns por ignorância e outros pelos negócios da vida, o conhecimento da mesma está fora do alcance deles; assim, a fim de que suas almas não pereçam por carecerem de instrução, por meio dos Artigos, que são poucos, procuramos abranger toda a doutrina da Fé [...] E para o presente momento, confiamos a Fé à memória, meramente atentando às palavras; esperando, porém, que, no tempo oportuno, possa-se provar cada um destes Artigos de Fé pelas Divinas Escrituras. Pois os artigos de Fé não foram compostos ao bel-prazer dos homens: antes, os mais importantes pontos dela foram selecionados a partir de todas as Escrituras, forjando o único ensino da Fé. E, como a semente de mostarda em seu pequeno grão contém muitos ramos, assim também esta Fé, em umas poucas palavras, tem abrangido em seu seio o pleno conhecimento da piedade contido em ambos, Antigo e Novo Testamentos ("The Catechetical Lectures of S. Cyril" Lecture 5.12)

 

Novamente vemos Cirilo afirmando que estamos sustentados por toda Escritura, que os artigos de fé são definidos pelas divinas Escrituras, forjando desta forma o único ensino de fé, que do início ao fim não se baseia numa tradição não-bíblica, mas sim nas Sagradas Escrituras, pois o ensino da piedade está contido em ambos os testamentos da Bíblia dos cristãos. Naquela época, o ensino transmitido pela Igreja não era como hoje em dia, em que as tradições (cada vez mais não-bíblicas) suplantam a autoridade máxima das Escrituras; ao contrário, era fortemente estruturado nas Escrituras:

 

"Mas aprendendo a Fé e a professando, tenhais em mente e conservai aquilo somente que vos é agora transmitido pela Igreja e que foi estruturado fortemente nas Escrituras" (Leituras Catequéticas, 5,12)

 

Bom, depois de tudo isso apenas alguém que realmente não tem a menor vontade de raciocinar que poderia passar por cima de todas essas provas e evidências e ainda dizer que os pais da Igreja eram contra a Sola Scriptura!!! Gregório de Nissa, que viveu aproximadamente na mesma época de Cirilo, afirmou o mesmo:

 

"A generalidade dos homens ainda flutua em suas opiniões acerca disto, as quais são tão errôneas como eles são numerosos. Quanto a nós, se a filosofia gentílica, que trata metodicamente todos estes pontos, fosse realmente adequada para uma demonstração, com certeza seria supérfluo adicionar uma discussão acerca da alma a tais especulações. Mas ainda que tais especulações procedessem, no que se refere ao assunto da alma, avançando tanto quanto satisfizessem ao pensador na direção das conseqüências já antevistas, nós não estamos autorizados para tomar tal licença - refiro-me a sustentar algo meramente por que nos satisfaz; pelo contrário, nós fazemos com que as Sagradas Escrituras sejam a regra e a medida de cada postulado; nós necessariamente fixamos nossos olhos sobre isto, e aprovamos somente aquilo que se harmoniza com o sentido de tais escritos" (Da Alma e da Ressurreição)

 

Ele não fazia da “tradição oral” a regra e medida de cada postulado. Ele não “fixava os olhos” na tradição oral. Ele não aprovava aquilo que estava de acordo com essa tal de “tradição oral”. Ao contrário: ele fazia apenas da Escritura a regra de cada postulado, ele fixava os olhos nessa Escritura e buscava sempre se harmonizar com os sentidos dela! Note que ele não disse que a Escritura era “uma das regras e medidas” de fé; ao contrário, ele com efeito afirmou ser a Sagrada Escritura A regra e medida de cada postulado, o que objetivamente elimina todas as doutrinas que vão além dela, que vão “além daquilo que está escrito” (1Co.4:6).

 

Ora, se a Escritura era a medida de cada postulado, então evidentemente aquilo que ultrapassava essa medida era rejeitado. Pois se muitas doutrinas ou dogmas não fossem fundamentados na Escritura, então ela não seria a medida de cada postulado, pois essas doutrinas constantemente ultrapassariam a medida estipulada pelas Escrituras, indo além dela naquilo que ela não diz. Portanto, as doutrinas devem estar dentro da medida das Escrituras, e nunca além dela. E, para aqueles que ainda insistem tolamente em quererem achar o tal do “SOMENTE”, ali está:

 

“...nós aprovamos SOMENTE aquilo que se harmoniza com o sentido de tais escritos”

 

Novamente vemos o “SOMENTE” inserido ali no final da citação de Gregório, mostrando que era aprovado SOMENTE aquilo que estava de acordo com as Escrituras, em harmonia com ela. Ora, se é aprovado SOMENTE aquilo que está nas Escrituras, então é Sola Scriptura na cabeça! A verdade é que quanto mais estudamos os escritos dos pais da Igreja, mais vemos o quanto que eles eram ferrenhamente contra as doutrinas católicas da maneira que encontramos hoje. O próximo que iremos analisar é Atanásio de Alexandria. Ele disse:

 

Toda a nossa Escritura, filho meu, tanto do Antigo como do Novo Testamento, é, tal como está escrito, inspirada por Deus e útil para ensinar (2Tim 3,16). Porém, o livro dos Salmos, se feita uma reflexão atenta, possui algo que merece uma especial atenção” (Atanásio a Marcelino – Sobre a Interpretação dos Salmos)

 

“Falando com maior precisão, pontualizemos então que toda a Escritura divina é mestra de virtude e de fé autêntica, e o livro dos Salmos oferece, ademais, um perfeito modelo de vida espiritual. Igual a quem se apresenta diante de um rei e assume as corretas atitudes corporais e verbais, não seja que apenas abra a boca, seja arrojado fora por sua falta de compostura, também a aquele que corre até a meta das virtudes e deseja conhecer a conduta do Salvador durante sua vida mortal; o sagrado Livro o conduz primeiro, através da leitura, à consideração dos movimentos da alma e, a partir daí, vai representando sucessivamente o resto, ensinando aos leitores graças a ditas expressões” (Atanásio a Marcelino – Sobre a Interpretação dos Salmos, Cap.4)

 

Aqui vemos que a Escritura, em especial o livro dos Salmos, oferece um perfeito modelo de vida espiritual”. Isso lembra muito a conhecida afirmação de Paulo, de que a Escritura é capaz de fazer o “homem de Deus perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm.3:17). Pode alguém que se torna “perfeito” ser INSUFICIENTE para ser salvo [mesmo sendo ‘perfeito’!?] e INSUFICIENTE para ser doutrinado? Que tipo de homem de Deus “PERFEITO” é esse???

 

Ora, se as Escrituras fazem o homem de Deus PERFEITO e PERFEITAMENTE CAPACITADO [repito: perfeito... perfeitamente capacitado], então é óbvio que ela é suficiente como regra de fé e doutrina, capaz de fazer o homem de Deus completamente preparado, e para toda boa obra. Como bem disse Atanásio de Alexandria: “Estes simplesmente fecham os seus olhos para o sentido óbvio das Sagradas Escrituras” (Atanásio, “A Criação e a Queda”). É como se eu dissesse:

 

“Eu sou perfeitamente amado por Deus”; e depois:

“Eu sou suficientemente amado por Deus”.

 

Será que a primeira anula ou diminui a segunda? É claro que não!!! Os “teólogos” católicos apanham até da gramática para convencer os seus fieis que pouco ou nada leem de Bíblia para fazê-los engolir uma doutrina herética de que a Sagrada Escritura não é suficiente. Conquanto Paulo tenha dito que ela é capaz de fazer o homem de Deus perfeitamente preparado, isto implica em suficiência. De duas, uma: Ou o homem de Deus é suficientemente preparado para toda boa obra; ou então ele é “insuficientemente perfeito”.

 

Como a segunda opção é contraditória em si mesma (algo que é PERFEITO não pode ser INSUFICIENTE ou IMPERFEITO ao mesmo tempo) e também o contexto deixa claro que as Escrituras fazem o homem de Deus PERFEITAMENTE CAPACITADO – e não “insuficientemente” – logo, fica muito claro o sentido textual de que Paulo apresentava mui claramente a suficiência das Escrituras, a fim de que sejamos perfeitamente preparados – em ensino, correção, doutrina e instrução (v.16) – para toda boa obra (v.17).

 

Significado de Perfeito

adj. Que reúne todas as qualidades; que não tem defeitos; ideal, impecável; excelente. Completo, absoluto, total.

 

Perfeição significa algo que vai MUITO ALÉM DE “SUFICIÊNCIA”, perfeição significa “COMPLETO, PLENITUDE, ABSOLUTO, TOTAL”. E é exatamente este o conceito básico de Sola Scriptura: Que as Escrituras são completas, absolutas, totais. Elas não necessitam do Magistério de alguma instituição religiosa e nem de uma tradição corrompida ao longo dos séculos com centenas e mais centenas de acréscimos doutrinários; ao contrário, ela contém tudo aquilo que é suficiente, absoluto e pleno para a salvação do ser humano. Para a infelicidade dos católicos, eles não sabem o que é “suficiente”.

 

Qualidade de suficiente
adj. Tanto quanto necessário; bastante: quantia suficiente.

 

Se a Sagrada Escritura é capaz de fazer o homem de Deus PERFEITO E PERFEITAMENTE HABILITADO, então ela me é suficiente. Simples assim! Desta forma, vemos que Paulo em 2Tm.3:16,17 e Atanásio escrevendo a Marcelino deixam claro o mesmo sentido: de que a Escritura é suficiente, para fazer o homem perfeito em uma vida espiritual. Mas Atanásio vai ainda além disso, e coloca explicitamente o “livro sagrado” em primeiro lugar – “o sagrado Livro o conduz primeiro, através da leitura, à consideração dos movimentos da alma”. Note que Atanásio coloca a o “Sagrado Livro” no topo, em primeiro lugar.  É por isso que para não se afastar da verdade temos que ter a garantia da Escritura:

 

”Se há pecado, voltará a si e deixará de fazê-lo; se não há pecado, se estimará ditoso ao saber que corre em procura dos verdadeiros bens; na luta, os Salmos darão as forças para não apartar-se jamais da verdade; ao contrário, convencerá aos impostores que tratavam de induzi-lo ao erro. A garantia de tudo isso não é um mero homem, mas sim a mesma Escritura divina (Atanásio a Marcelino – Sobre a Interpretação dos Salmos, Cap.22)

 

Outra evidência da superioridade e autoridade máxima das Escrituras provém do fato de que ela por si só já era suficiente para “por em fuga os demônios” e eram condenados aqueles que compunham outros livros como se tivessem a mesma autoridade da Bíblia:

 

“Ao menos eu, o ancião, escutei da boca de homens sábios, que antigamente, em tempos de Israel, bastava a leitura da Escritura para por em fuga os demônios e destruir as armadilhas estendidas por eles aos homens. Por isso, me dizia [meu interlocutor], são de todo condenáveis aqueles que, abandonando estes livros, compõem outros com expressões elegantes, fazendo-se chamar exorcistas, como ocorreu aos filhos do judeu Esceva, quando tentaram exorcizar dessa maneira! Os demônios se divertem e burlam quando os escutam; pelo contrário tremem diante das palavras dos santos e nem ouvi-las podem. Pois nas palavras da Escritura está o Senhor e ao não poder suportás-las gritam: ‘Te rogo que não me atormentes antes do tempo!’” (Atanásio a Marcelino – Sobre a Interpretação dos Salmos, Cap.23)

 

Atanásio também, a exemplo dos demais, exigia provas das Escrituras para aquilo que se estava afirmando:

 

“Por que todo esse desvario? Em que lugar das Escrituras acharam a designação de anjo dada ao Espírito? Não é preciso que repita agora o que já disse alhures. Ele foi chamado Consolador, Espírito de filiação, Espírito de Deus, Espírito do Cristo. Em parte alguma, anjo, arcanjo, espírito ministrante - como o são os anjos; ao contrário, é ele mesmo ministrado por Gabriel, que disse a Maria: "o Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com sua sombra". Se as Escrituras não chamam o Espírito um anjo, que excusa invocam aqueles tais para dizerem tal temeridade? Mesmo Valentim, que lhes inspirou a nefasta idéia, dava distintamente a um o nome de Paráclito e a outros o de anjos, ainda se atribuindo a todos a mesma "idade". O sentido das palavras divinas refuta absolutamente a linguagem herética dos que desatinam contra o Espírito. Eles porém, sempre hostilizando a verdade, tiram - conforme dizes - não mais das Escrituras, onde nada achariam, mas de seu próprio coração, o que andam dizendo: se o Espírito não é criatura, nem um dentre os anjos, mas procede do Pai, é então filho, e neste caso ele e o Verbo são irmãos” (Atanásio a Serapião – Sobre a Divindade do Espírito Santo)

 

Não vale a pena ressaltar novamente o fato de que seria desnecessário provar nas Escrituras alguma doutrina em específico, caso muitas dessas doutrinas não se encontrassem mesmo na Bíblia de jeito nenhum, e fosse preciso apelar para uma tradição não-bíblica e não-escrita para isso. A única razão lógica para a exigência de se encontrar base bíblica era se realmente as doutrinas tem que, por obrigação, ser encontradas nela. Até mesmo na Primeira Conferência dos Padres do Deserto (220 AD) vemos isso sendo exposto:

 

“Se, pois, como dissemos, recorremos à meditação assídua das Escrituras e levantamos a nossa memória à lembranças das coisas espirituais, ao desejo da perfeição e à esperança da futura bem aventurança, é inevitável que os pensamentos daí nascidos sejam espirituais e farão que nossa mente se detenha naquilo que meditamos (Primeira Conferência dos Padres do Deserto, Parte 2)

 

O desejo de alcançar a tão sonhada perfeição está inteiramente relacionado ao recorrer à meditação assídua da Escrituras. Aparentemente eles também sabiam que era a Escritura que fazia o homem de Deus “perfeito e perfeitamente preparado para toda boa obra” (2Tm.3:17)! O próximo que iremos analisar agora é Epifânio, um pai da Igreja do século IV (320-403 AD). Ele demonstra ter sérias dúvidas quanto àquilo que aconteceu com Maria:

 

"Nem digo que tenha ficado imortal nem posso afirmar que tenha morrido. A Sagrada Escritura, transcendendo aqui a capacidade da mente humana, deixa a coisa na incerteza, em atenção ao Vaso exímio e excelente, de sorte que ninguém lhe atribua alguma sordidez própria da carne. Portanto, se ela morreu, não sabemos" (Os últimos dias da Virgem Maria)

Vejam que verdadeiro golpe de morte na teologia dos católicos. Em primeiro lugar, o autor diz não saber o que aconteceu a Maria, mas os católicos dizem que sabem com certeza o que aconteceu com ela, ainda lançando um anátema naqueles que questionam isso!!! Por exemplo, o papa Pio XII fez um pronunciamento ex cathedra declarando a Assunção de Maria como doutrina infalível do romanismo, nos seguintes termos:

 

“Pela autoridade do nosso Senhor Jesus Cristo, dos Benditos Apóstolos Pedro e Paulo, e pela nossa própria autoridade, nos pronunciamos, declaramos, e definimos como dogma divinamente revelado, que a Imaculada Mãe de Deus, Maria sempre virgem, no final de sua vida terrena, foi levada a gloria celestial, em corpo alma. Portanto se alguém se atrever (que Deus o proíba) voluntariamente a negar ou colocar em duvida o que foi por nós definido, saiba que se afastou inteiramente da fé divina e católica

 

Note que o papa Pio XII, em pleno ano de 1950 depois de Cristo, afirma que aquele que colocar em dúvida esse dogma se afastou inteiramente da fé “divina e católica”. Então, tecnicamente falando, Epifânio certamente estava “totalmente afastado da fé divina e católica”, já que colocava em dúvida isso e dizia não saber a resposta! E note que Epifânio colocou o termo no plural, dizendo: “não sabemos”. Ou seja, ele estava generalizando, ninguém da época dele (Séc.IV) sabia exatamente o que aconteceu com ela!

 

Mas milhares de anos depois o papa Pio resolveu a questão facilmente, lançando anátema e excomungando da Igreja aqueles que questionam o dogma! Ora, prova que não existia uma tradição oral incorruptível como alegam os católicos, que teria supostamente atravessado 1950 anos sem se perder até hoje. Se isso fosse verdade, então Epifânio e os demais de sua época teriam a total certeza do seu destino, ao invés de colocar em dúvida e dizer que não sabia.

 

Portanto, não existe certeza quando o assunto é a “tradição” católica. E mais: o motivo pelo qual ele não sabia era porque a Sagrada Escritura o deixava na incerteza! Ou seja, era a Sagrada Escritura a base deles para saber o paradeiro de Maria, e não as “tradições orais” que o catolicismo se utilizou (falsamente, porque já no século IV não se sabia mais de nada, quanto menos no séc.XX!).

 

Dito em termos simples, quando a Bíblia silencia a respeito de alguma coisa, eles simplesmente dizem que não sabem. Eles não apelavam para uma fantasiosa “tradição oral”, nem tampouco palpitavam baseando-se em algo extra-bíblico. Ao contrário, se não estava claramente na Bíblia, eles simplesmente admitiam: não sabemos a resposta! Já os católicos do século XXI, quando veem que algo não está na Bíblia, logo dizem: “Ah, então está na tradição oral”!

 

Eles simplesmente não podem admitir a dúvida, nem as suas próprias lacunas, muito menos podem sequer admitir que não tem base nenhuma, mas arrogantemente dizem (sem prova alguma) que está numa tradição não-escrita (uma “saída” muito fácil, por sinal, já que ninguém poderia provar mesmo que algo não foi dito por alguém!). Se os católicos dissessem que não está na Bíblia, bastaria os protestantes irem na própria Palavra de Deus escrita e provarem que está lá. Mas como podemos provar que algo não foi dito por alguém numa “tradição oral”, visto que a própria existência da tradição oral não pode ser provada?

 

Ora, se provar uma negativa já é difícil, quanto mais provar que alguém não disse algo que não pode ser provado que não disse porque simplesmente ninguém disse nada! Noutras palavras, nenhum apóstolo transmitiu as “doutrinas católicas” de ensino, mas os católicos mesmo assim se apoiam nestes mitos e, quando postos à prova, simplesmente se escondem por detrás deles porque algo que não existe não pode ser provado ser falso! Epifânio simplesmente reconhecia que ele e os demais de sua época não sabiam, porque a base doutrinária dele, as Sagradas Escrituras, nada diziam a respeito.

 

Já que não existia nenhum outro método para se saber os acontecimentos do século I e nem havia uma tradição oral correndo por aí nos seus tempos para lhe ajudar, então ele é honesto e sincero em admitir aquilo que nenhum católico admite: Que se a Escritura não diz nada a respeito, então nós simplesmente não sabemos! Somente alguém que se apoia totalmente nas Escrituras pode reconhecer que não tem conhecimento sobre algo que não está declarado nela, e se houvesse uma tradição oral correndo em seus dias, ele poderia tranquilamente escrever aos seus leitores a resposta correta e exata que eles tanto precisavam!

 

Outro escrito valioso e famoso de Epifânio é quando ele detona com as imagens:

 

“Eu encontrei um véu suspenso nas portas desta mesma igreja, o qual estava colorido e pintado, ele tinha uma imagem, a imagem de Cristo pode ser ou de algum santo; eu não recordo mais quem ela representava. Eu pois tendo visto este sacrilégio; que numa igreja de Cristo, contra a autoridade das Escrituras, a imagem de um homem estava suspensa, lacerei aquele véu (Jerome, Lettres, Paris 1951, pag. 171)

 

Mas este escrito não está aqui somente por dizer que as imagens dos santos nas igrejas eram um sacrilégio, mas sim porque isso era feito “contra a autoridade das Escrituras”, mostrando que era a Escritura a autoridade para decidir se isso deveria ser feito ou não. Os católicos insistem em dizer que pela tradição é correto o uso de imagens nas igrejas, mas Epifânio se mostra a favor das Escrituras e contra isso. Se houvesse realmente essa “tradição” que os católicos tanto alegam, então obviamente ele não teria lacerado aquele véu, mas teria sido totalmente a favor de tal uso na igreja.

 

O fato dele ter tomado esta atitude prova que essa “tradição oral” (supostamente a favor das imagens) simplesmente inexiste, e que sendo a Escritura a única regra de fé e prática, então aquilo que ele [Epifânio] classifica como errado deve ser simplesmente extirpado da Igreja, e foi exatamente isso o que ele fez, sem qualquer cerimônia! O próximo que iremos analisar a partir de agora é também um dos que mais pregaram a favor da Sola no século IV – Ambrósio de Milão. Foi ele quem disse:

 

Quem ousará falar quando a Escritura cala? Nós nada devemos acrescentar à ordem de Deus; se vós acrescentais ou tirais alguma coisa sois réus de prevaricação” (Ambrósio, Lib. II de vocat. Gent. cap. 3 et lib. de parad. cap. 2; citado por Luigi Desanctis in op. cit., pag. 19)

 

Ninguém pode falar algo no lugar onde a Escritura se cala!  Ambrósio é muito claro em dizer que as pessoas que ousam dizer algo onde não está escrito na Escritura, está acrescentando coisas às ordens de Deus, e portanto são réis de prevaricação.  Ora, prevaricar significa exatamente:

 

Significado de prevaricar

1. Trair, por interesse ou má-fé, os deveres do seu cargo ou ministério.

2. Corromper, perverter.

 

Com isso fica claro que, para Ambrósio, os que ousam dizer algo quando a Escritura se cala (como os católicos fazem, acrescentando cada vez mais dogmas que não se encontram na Escritura) estão traindo, corrompendo e pervertendo os valores cristãos, acrescentando coisas à ordem de Deus! O princípio colocado aqui é muito bem claro: Acrescentar à fé algo que não se encontra na Escritura é ser réu de prevaricação!

 

Mas não é só aqui que Ambrósio deixa claro que não devemos acrescentar nada à fé além daquilo que está nas Escrituras. Ele também escreve dizendo que a “Escritura divina” é o limite estipulado pelos apóstolos, limite este que nós não devemos ultrapassar:

 

“Eis o conteúdo da Escritura divina. Deveríamos audaciosamente ultrapassar os limites (postos) pelos apóstolos? Acaso somos mais prudentes do que os apóstolos?” (Explicação do Símbolo, Cap.3)

 

O limite posto pelos apóstolos, que não devemos ultrapassar jamais, é a Escritura divina. Mais claro que a luz do dia. Infelizmente os católicos ultrapassaram e até cansaram de tanto ultrapassar os “limites da Escritura”, pois na verdade eles fazem isso a cada novo dogma ou doutrina que não se encontra na Escritura Sagrada, que é o limite. É bem possível que quando Ambrósio escreveu sobre esse limite (Escritura) pelo qual não devemos ultrapassar, ele estivesse pensando nesta passagem clara do apóstolo Paulo, alguns séculos antes:

 

“E eu, irmãos, apliquei estas coisas, por semelhança, a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro” (1 Coríntios 4:6)

 

A Escritura não é apenas o nosso padrão – ela é o nosso limite! Não devemos ultrapassar aquilo que nela está dito, pois estaríamos acrescentando palavras aos apóstolos, como se fôssemos “mais prudentes do que eles”. Sendo que o limite posto pelos apóstolos é a Escritura divina, então ultrapassar aquilo que nela está escrito é um claro sinal de desobediência e imprudência. Ambrósio resume a questão nas seguintes palavras: “acaso somos nós mais prudentes do que os apóstolos”?

 

O sentido aqui é muito claro. Sendo que os apóstolos escolheram o “conteúdo da Escritura divina” como sendo o limite pelo qual não devemos ultrapassar, então todo aquele que “audaciosamente” ultrapassa o conteúdo das Escrituras está querendo ser “mais prudente do que os apóstolos” foram, o que evidentemente é um completo engano.

 

E Ambrósio reforça ainda mais fortemente, alguns capítulo à frente daquela mesma obra:

 

“Com efeito, tens no livro do Apocalipse de João, livro que está no Cânon e que provê um grande fundamento para a fé, pois relembra aí com clareza que nosso Senhor Jesus Cristo é onipotente, embora também isso se encontre em outros lugares -tens nesse livro: “Se alguém acrescentar ou tirar alguma coisa, sofrerá o julgamento e o castigo” (cfAp. 22,18-19). Se nada pode ser tirado ou acrescentado aos escritos de um só apóstolo, como poderíamos mutilar o símbolo que recebemos como tendo sido composto e transmitido pelos apóstolos? Nada devemos tirar e nada acrescentar! (Explicação do Símbolo, Cap.7)

 

Xeque-mate!!!

 

Os católicos, quando posto à frente deles a evidência do Apocalipse de João (que não deveria ser acrescentado nada à ele), geralmente respondem que aquilo “valia apenas com o Apocalipse” (como se eles tivessem o direito de ir acrescentando doutrinas que não existem nos outros livros!). Mas Ambrósio simplesmente extermina com essa mirabolante teoria católica, pois com efeito afirma que, se de um só apóstolo já é proibido tirar ou acrescentar algo, que se dirá de todo o resto! Ou seja, “nada devemos tirar e nada acrescentar”! Aleluia!!!

 

Com isso os acréscimos católicos, cada vez mais claramente não-bíblicos, sem qualquer tipo de fundamento Escriturístico, são ainda mais fortemente rebaixados e deixados por terra. Note que em momento algum Ambrósio afirma que “não devemos ultrapassar os limites impostos pela tradição oral”, pois a tradição oral não foi e nunca será um “limite”. Ao contrário, Ambrósio mais uma vez se referia àquilo que estava escrito, quando diz:

 

“...Se nada pode ser tirado ou acrescentado aos escritos de um só apóstolo...”

 

A lógica novamente é muito simples: não devemos acrescentar nada aos escritos de João (“um só apóstolo”), quanto menos aos escritos de todos os outros (“pelos apóstolos”). Ambrósio chama isso de “mutilar o símbolo que temos recebido”, e novamente essa não é uma linguagem muito favorável à prática dos católicos de acrescentar doutrinas que não estão na Bíblia e retirar outras que lá estão! Por fim, vemos que o único local pelo qual somos convidados por Ambrósio para irmos “beber” e nos “saciar” é em “toda a Escritura” – Antigo e Novo Testamento -, mas nunca numa “tradição oral”:

 

“Sacia-te primeiro do Antigo Testamento para em seguida beberes do Novo. Se não beberes do primeiro, não poderás saciar-te do segundo. Bebe do primeiro para atenuares a sede que tens, do segundo para a estancares por completo. […] Sacia-te da taça do Antigo e do Novo Testamento porque, em ambos os casos, é Cristo que bebes. Bebe Cristo, porque Ele é a vinha (Jo 15, 1), Ele é a rocha de onde brotou a água (1Co 10, 3), Ele é a fonte da vida (Sl 36, 10). Bebe Cristo, porque Ele é “o rio, cujos canais alegram a cidade de Deus” (Sl 45, 5), Ele é a paz (Ef 2, 14) e “do seu seio correrão rios de água viva” (Jo 7, 38). Bebe Cristo, para te saciares do sangue da tua redenção e do Verbo de Deus. O Antigo Testamento é a sua palavra, como o é o Novo Testamento. Bebemos e comemos a Sagrada Escritura; nessa altura, o Verbo Eterno desce às veias do espírito e penetra na vida da alma. “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Dt 8, 3; Mt 4, 4). Sacia-te, pois, deste Verbo, mas segundo a ordem que convém. Começa por bebê-Lo no Antigo Testamento, passando depois, sem tardar, ao Novo (Comentário ao Salmo I, 33)

 

Beber do Antigo e Novo Testamento, e se saciar do Antigo e Novo Testamento! Os cristãos “bebiam e comiam da Sagrada Escritura”, pois era nela que eles eram edificados espiritualmente. Assim como Jesus diz para bebermos dele (“Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” – Jo.7:37), que é a fonte de vida eterna (Jo.11:25), assim também nós somos incentivados a comermos e bebermos da Sagrada Escritura, a nossa única regra de fé e doutrina, porquanto nela nós temos a vida eterna (Jo.5:39), pois é ela que testifica a respeito de Cristo (Jo.5:39).

 

O próximo que iremos analisar, já praticamente fechando o século IV, é o famoso historiador da Igreja, Eusébio de Cesaréia. A sua mais famosa obra tem o nome de “História Eclesiástica”, sendo uma extensa obra de caráter histórico que abrange os primeiros séculos da era cristã e que é dividida em dez volumes. Neles encontramos várias citações da autoridade máxima das Escrituras, as quais iremos analisar cuidadosamente a seguir:

 

”O mesmo escritor [Hegesipo] nos explica o início das heresias de seu tempo nestes termos: ‘E depois que Tiago o Justo sofreu o martírio, o mesmo que o Senhor e pela mesma razão, seu primo Simeão, o filho de Clopas, foi constituído bispo. Todos o haviam proposto, por ser o outro primo do Senhor. Por esta causa chamavam virgem à Igreja, pois ainda não havia se corrompido com vãs tradições (História Eclesiástica, Livro IV, 22:4)

 

A primeira menção não poderia ser outra senão mais um grande tiro em cima daqueles que pregam a existência de uma tradição incorruptível desde os tempos dos apóstolos até hoje. Conquanto que algumas tradições referentes a costumes e hábitos fossem observadas, elas não tinham uma total infalibilidade ou incorruptibilidade, estando sujeitas a serem corrompidas com o passar do tempo.

 

Muitas vezes Eusébio cita a “tradição” apenas como algo referente a conteúdos históricos (o que não poderia ser diferente, visto ele ser um historiador), sem nenhum tipo de caráter doutrinário. Algumas pessoas, contudo, estavam querendo impor suas tradições e com elas acabavam desviando o verdadeiro evangelho, tendo sido “corrompido com vãs tradições”. É muito relevante dizer que eles (os cristãos do século IV) recorriam constantemente às Escrituras, porque os seus ensinamentos deveriam necessariamente estar em conformidade (consonância) com elas:

 

”Portanto, irmãos, eu com mais de sessenta e cinco anos no Senhor, que conversei com irmãos procedentes de todo o mundo e que recorri toda a Sagrada Escritura, não me assusto com os que tratam de impressionar-me, pois os que são maiores do que eu disseram: “Importa mais obedecer a Deus do que aos homens” (História Eclesiástica, Livro V, 24:7)

 

”Policarpo dialogava sentado, assim como suas saídas e entradas, seu modo de vida e o aspecto de seu corpo, os discursos que fazia ao povo, como descrevia suas relações com João e com os demais que haviam visto o Senhor e como recordava as palavras de uns e de outros; e o que tinha ouvido deles sobre o Senhor, seus milagres e seu ensinamento; e como Policarpo, depois de tê-lo recebido destas testemunhas oculares da vida do Verbo, relata tudo em consonância com as Escrituras (História Eclesiástica, Livro V, 20:6)

 

Eusébio chama novamente as Escrituras de “divinas” e mostra que a tradição não conseguiu preservar os nomes de alguns autores ortodoxos e eclesiásticos, mostrando novamente desta forma que a tradição não é incorruptível:

 

”Mas chegaram também até nós tratados de muitos outros, dos quais não é possível catalogar os nomes, autores ortodoxos e eclesiásticos, como certamente demonstram as corretas interpretações da Escritura divina. Mesmo assim, são para nós desconhecidos porque não se dá o nome de seus autores (História Eclesiástica, Livro V, 27:1)

 

Novamente fica claro a superioridade das Escrituras sobre a tradição, visto que as Escrituras são chamadas de “divinas” (nem Eusébio nem qualquer outro pai da igreja de que se tenha conhecimento chega a chamar a tradição de “divina”!!!), e que a tradição não foi capaz de preservar certos nomes, os quais podemos acrescentar também o autor da epístola aos Hebreus, que a igreja de Roma dizia não ser de Paulo, mas outras igrejas criam que sim. Até hoje, é incerta a autoria dessa epístola.

 

Se a tradição oral fosse incorrupta, certamente traria esse nome para nós. Mas, se ela não foi capaz nem sequer de resolver uma questão tão simples, então não seria presumível que ela resolvesse os maiores dilemas teológicos que os católicos alegam para si com base na fraqueza e corruptibilidade dessa mesma tradição!

 

O fato é que já na época de Eusébio existiam pessoas que deixavam de lado a fé simples e pura das Escrituras chamadas de “divinas”, deixando de lado as Santas Escrituras de Deus e tentando as corromper:

 

”Adulteraram sem escrúpulo as divinas Escrituras e violaram a regra da fé primitiva; e desconheceram a Cristo por não investigar o que dizem as divinas Escrituras, em vez de andar trabalhosamente exercitando-se em encontrar uma figura de silogismo para legitimar seu ateísmo. Porque, se alguém lhes apresenta uma sentença da Escritura divina, começam a discorrer que figura de silogismo se pode fazer, se conexo ou disjuntivo. Deixaram as Santas Escrituras de Deus e se ocupam de geometria, como quem é da terra; falam por influência da terra e desconhecem o que vem de cima. Mas os que se aproveitaram das artes dos infiéis para o desígnio de sua própria heresia e com as artes dos ímpios falsificaram a fé simples das divinas Escrituras, que necessidade há de dizer que já não estão perto da fé? Por esta causa puseram suas mãos sem escrúpulo sobre as divinas Escrituras, dizendo que as haviam corrigido” (História Eclesiástica, Livro V, 28:13-15)

 

As Escrituras novamente são chamadas de “divinas” e que foi ditada pelo Espírito Santo:

 

”Do atrevimento deste pecado, não é provável que eles o ignorem, porque, ou não crêem que as divinas Escrituras foram ditadas pelo Espírito Santo, e nesse caso são incrédulos, ou então acham que são mais sábios do que o Espírito Santo: e que outra coisa é isto se não estar possuído pelo demônio? Porque não podem negar que o atrevimento é deles mesmos, já que as cópias estão escritas por suas mãos e não receberam as Escrituras nesse estado daqueles que os instruíram, nem poderão mostrar um exemplar de onde tenham copiado as suas” (História Eclesiástica, Livro V, 28:18)

 

Note que alguns estavam deixando de lado as palavras da Bíblia, para creem naquilo que mais lhes convinha. Neste caso, eles não são "elogiados” por tal ato, mas sim repudiados como “possuídos pelo demônio”! Eusébio também cita Orígenes, mostrando que este era aplicado desde pequeno no estudo das divinas Escrituras, e nestas estava edificado e fundamentado para as doutrinas da fé:

 

”E efetivamente, tendo-se ele [Orígenes] exercitado já desde pequeno nas divinas Escrituras, tinha já lançados não pequenos fundamentos para as doutrinas da fé. Também nestas tinha se ocupado sem medida, pois seu pai, antes do ciclo de estudos comum a todos, fez com que sua preocupação por elas não fosse secundária” (História Eclesiástica, Livro VI, 2:7)

 

”Durante muitos anos continuou levando este tipo de vida de filósofo, arrancando de si mesmo tudo que pudesse dar estímulo a suas paixões juvenis, suportando durante todo o dia consideráveis fadigas ascéticas, e à noite consagrando a maior parte do tempo ao estudo das divinas Escrituras. Assim perseverava numa vida a mais filosófica possí­vel, seja em exercícios de jejum, seja reduzindo o tempo de sono, que de qualquer forma, nunca tomava sobre o leito, mas a toda custa sobre o chão” (História Eclesiástica, Livro VI, 3:9)

 

Novamente vemos que, em matéria de fé e doutrina, as Escrituras sempre são apontadas como sendo o único fundamento. E são nelas que Orígenes se ocupava, e não no “estudo da tradição” (o que lhe seria muito conveniente, se ela realmente “revelasse” doutrinas que não estão na Bíblia e que deveriam ser igualmente estudadas e observadas!). O único motivo pelo qual Orígenes se ocupava somente no estudo das Escrituras (e não de uma tradição paralela a ela) e fazia delas o seu único fundamento em matéria de fé e doutrina é porque factualmente é a Escritura a autoridade máxima precisamente em matéria de fé e doutrina.

 

Por fim, a citação mais fatal de Eusébio provavelmente deve ser a indicada a seguir, que mostra novamente que nós não podemos acrescentar nenhuma doutrina à do Novo Testamento:

 

”Faz muito e bem longo tempo, querido Avircio Marcelo, que tu me ordenaste escrever algum tratado contra a heresia dos chamados "de Milcíades", mas até agora de certa maneira sentia-me indeciso, não por dificuldade em poder refutar a mentira e dar testemunho da verdade, mas por temor de que, apesar de minhas precauções, parecesse a alguns que de certo modo acres­cento ou junto algo novo à doutrina do Novo Testamento, ao qual não pode juntar nem tirar nada quem tenha decidido viver conforme este mesmo Evangelho (História Eclesiástica, Livro V, 16:3)

 

Aqui, da maneira mais clara e direta que poderíamos exigir, vemos a completa precaução dos cristãos primitivos em não acrescentar nada novo à doutrina do Novo Testamento. Novamente, quando a questão é matéria doutrinária, é vetado qualquer tipo de “acréscimo” (algo novo) que não esteja registrado nas Sagradas Escrituras, em especial o Novo Testamento da Bíblia. O temor era tão grande que até mesmo para refutar as heresias eles tinham receio de não dizer algo que não estava nas Escrituras, com medo de estar acrescentando palavras à Bíblia. Ele diz que “não se pode juntar nem tirar nada quem tenha decidido viver conforme este mesmo evangelho”.

 

Os católicos são o exato oposto deste quadro. Eles chamam os protestantes de “hereges”, mas só debatem as suas doutrinas com base na tradição, quase sempre dizendo que a Bíblia é insuficiente em matéria de fé e doutrina e que não está nela tudo o que é necessário para o nosso doutrinamento. Ou seja, enquanto os cristãos primitivos só refutavam as heresias com base nas Escrituras e tomavam todo tipo de cautela em não acrescentar nenhuma doutrina que não esteja no Novo Testamento, os católicos fazem exatamente o contrário e acham que “refutam” alguém com base no sistema inverso: ultrajar a própria Bíblia e chama-la de insuficiente!

 

Ao invés de refutarem as heresias pela Bíblia e tomarem toda a precaução de não adicionarem doutrinas fora do Novo Testamento, eles se resumem a atacar a própria Bíblia, com alegações falsas e desprovidas de inteligência que se baseiam no mais puro desespero em fugir de um embate somente na Bíblia, como os cristãos primitivos faziam! Eusébio era o oposto. Ele citava que “não se pode juntar nem tirar nada quem tenha decidido viver conforme este mesmo evangelho”. Dito em termos simples, se acrescentamos doutrinas que não se encontram nas Escrituras, não estamos vivendo “conforme esse mesmo evangelho”!

 

É somente quando nos sujeitamos em obediência à palavra escrita, sem acrescentar nem tirar nenhuma doutrina, que podemos estar vivendo de acordo com a verdade do evangelho. Isso pode soar desesperador para o clero romanista, mas é a mais pura verdade – a verdade que liberta. João Cassiano (370–475 AD) declarou isso, enfatizando fortemente a meditação assídua das Escrituras como um meio de se alcançar a perfeição:

 

“Convém, portanto, fazer por causa do nosso escopo principal, isto é, a pureza do coração, que é a caridade, todas aquelas coisas secundárias, jejuns, vigílias, anacorese, meditação das Escrituras, e não desbaratar por causa delas esta virtude principal, pela qual, se a guardarmos intacta em nós, nada nos poderá fazer mal, ainda que se omita por necessidade algo secundário” (João Cassiano, Primeira Conferência dos Padres do Deserto)

 

“Assim, os jejuns, as vigílias, a meditação das Escrituras, o despojamento e a privação de todos os recursos não constituem a perfeição, mas são instrumentos da perfeição, pois se não é neles que está o fim dessa disciplina, é por eles que se chega ao fim (João Cassiano, Primeira Conferência dos Padres do Deserto)

 

“É a este fim, portanto, que se prendem a leitura freqüente e a constante meditação das Escrituras: proporcionar a memória das coisas espirituais” (João Cassiano, Primeira Conferência dos Padres do Deserto)

 

A tradição nunca é considerada como um “meio [instrumento] de se alcançar a perfeição”, porque ela por si só não serve para nada em matéria de fé e doutrina, só servindo para termos históricos ou hábitos que não tem relação doutrinária em si mesma. É, portanto, a Escritura um “instrumento para a perfeição”, porque ela é um dos meios a que se chega ao fim [à perfeição].

 

Como já foi bem dito e explanado, não é possível que a Escritura seja um instrumento para a perfeição se ela simplesmente é insuficiente. O incentivo a “leitura frequente e constante meditação nas Escrituras” como um “instrumento da perfeição”, a par de qualquer tipo de “tradição”, é um forte fator que apoia o fato de que a Sagrada Escritura é de todo suficiente e até mais que suficiente! Dionísio (o Areopagita) estende isso da seguinte maneira:

 

“É por isso que invocando Jesus, Luz do Pai, através do qual temos acesso ao Pai, princípio de toda a Luz, elevemos nossos olhos tanto quanto pudermos até as iluminações provenientes das Sagradas Escrituras e iniciemos na medida das nossas forças, no conhecimento da hierarquia das inteligências celestes tal como nos revelam as próprias Escrituras (Da Hierarquia Celeste, Cap.1)

 

Vemos que a nossa iluminação espiritual é proveniente da Sagrada Escritura, porque a verdade provém claramente das Sagradas Escrituras, sendo a própria substância de Deus naquilo que tem de mais secreto:

 

“Se argumentar-se que Deus manifestou-Se sem intermediários a algum santo, que se saiba que nunca ninguém O viu e nem jamais O verá, porque essa verdade provem claramente das Sagradas Escrituras e é a própria substância de Deus naquilo que tem de mais secreto (Da Hierarquia Celeste, Cap.4)

 

Passaremos agora para o estudo dos escritos daquele que até hoje é considerado o mais renomado de todos os pais da Igreja cristã dos primeiros séculos – Agostinho de Hipona. Ele pôs fim à sua controvérsia com os donatistas, não com base na tradição (pois nenhuma doutrina se baseia em uma tradição não-bíblica), mas sim com base na Sagrada Escritura, evidentemente:

 

"Nada mais queremos ouvir de ‘tu dizes’ e ‘eu digo’, mas ouçamos o ‘Assim diz o Senhor’. Indubitavelmente existem Livros do Senhor, a cuja autoridade ambos damos nosso consentimento, submissão e obediência; neles pois busquemos a igreja, e neles discutamos a nossa disputa" (Agostinho, pondo fim à sua controvérsia com os donatistas)

 

É na Sagrada Escritura que toda questão era decidida. Agostinho deixa claro que meramente a opinião pessoal dele ou a dos donatistas não iria fazer diferença substancial nenhuma. A única coisa que teria a autoridade suficiente para decidir a questão era a autoridade máxima dos “Livros do Senhor”, a Escritura Sagrada do Deus vivo. Sob a autoridade desses livros Agostinho afirma que a igreja busca sob o nosso “consentimento, submissão e obediência”.

 

Note que não era a “tradição” que eles prestavam tão tamanha submissão, mas sim à autoridade dos Livros Sagrados. É, portanto, “neles que discutimos a nossa disputa”. Sob a autoridade máxima e suprema da Escritura, toda questão é factualmente decidida, ainda que num contexto de fortes divergências. Agostinho volta a declarar em outra oportunidade que deveria se apoiar na autoridade e origem divina da Sagrada Escritura, e não sobre os seus próprios argumentos ou nas forças de sua própria razão:

 

"Persuadiste-me de que não eram de repreender os que se apoiam na autoridade desses livros que Tu deste a tantos povos, mas antes os que neles não crêem... Porque nessa divina origem e nessa autoridade me pareceu que devia eu crer... Por isso, sendo eu fraco e incapaz de encontrar a verdade só com as forças da minha razão, compreendi que devia apoiar-me na autoridade das Escrituras; e que Tu não poderias dar para todos os povos semelhante autoridade se não quisesses que por ela te pudéssemos buscar e encontrar..." (Confissões - VI, 5: 2-3)

 

Não era pela sua própria força, não era pela sua própria razão. Era, antes de tudo, pela autoridade das Escrituras, que tiveram origem divina pela qual ele deveria crer e se apoiar nelas. Não temos mais do que um único ápice de autoridade aqui. A Sagrada Escritura é claramente indicada como sendo a maior base de fé na qual ele poderia se apoiar ou descansar a sua fé.

 

Diante disso seria um absurdo inferir que Agostinho não considerava a Escritura como sendo o ápice do patamar e da autoridade. Mas, para aqueles que ainda custam a crer no óbvio, terão que ver o doutor eclesiástico novamente colocando o cânon bíblico “na mais salutar autoridade”, isto é, acima de qualquer outro meio (inclui-se tradição oral, é claro!):

 

“Aqui, alguém talvez pergunte se nossos autores sacros, cujos escritos, inspirados por Deus, constituem para nós um cânon da mais salutar autoridade, se eles devem ser chamados somente sábios ou ainda eloquentes” (A Doutrina Cristã, Livro IV – Sobre a maneira de ensinar a doutrina, Cap.9)

 

A Escritura, especialmente completa em seu cânon, compõe para nós a maior autoridade em matéria de fé e doutrina. Essa declaração que surge enfaticamente nos escritos de Agostinho visa eliminar as possibilidades dos papistas dizerem que a tradição possui igual valor ou maior do que a própria Bíblia, conquanto que Agostinho a tenha colocado em primeiríssimo lugar em autoridade! É por isso que ele diz que a nossa fé está edificada sobre a autoridade das Escrituras, e que, por isso, ela cambaleará caso a autoridade das Escrituras vacilar:

 

Ora, a fé cambaleará se a autoridade das Escrituras vacilar. E, cambaleando a fé, a caridade, por sua vez, enfraquer-se-á. Pois diminuir a fé é necessariamente é diminuir também a caridade” (A Doutrina Cristã – Princípios Básicos de Exegese, Cap.41)

 

Se as Escrituras não fossem a autoridade máxima em matéria doutrinária de ensino, então a fé continuaria mesmo se a Escritura “vacilasse”; afinal, os católicos já arrumaram o “probleminha” para a gente, dizendo que existe uma “tradição oral incorrupta” que preserva doutrinas e ensinamentos infalíveis que nenhum apóstolo se lembrou de escrever e os quais a Bíblia silencia absolutamente. Portanto, se a autoridade das Escrituras cambaleasse, a nossa fé poderia estar perfeitamente atrelada à “autoridade da tradição”, e estaria por meio dela firme do mesmo jeito!

 

Mas não é isso o que Agostinho nos diz. Ele diz da maneira mais direta o possível que a própria fé cambalearia caso a autoridade das Escrituras vacilasse! Isso significa que, sem as Escrituras, não sobraria nada – nem mesmo a própria fé! Pois a fé está edificada unicamente sobre as Escrituras (sem um substituto ou regra de fé paralela) e, portanto, sem ela a fé cambalearia, bem como a caridade enfraqueceria. A caridade está fundamentada na fé, e a fé está fundamentada nas Escrituras. Sem as Escrituras, a fé cairia e a caridade também.

 

Assim vemos que a Escritura é, sem sombra de dúvida, a autoridade máxima na qual a própria fé está sustentada. Não existe mais de uma autoridade na qual a fé está sustentada, pois se existisse, ela [a fé] continuaria ilesa (fundamentada sobre a tradição) mesmo sem haver Escritura alguma. O fato da fé realmente cambalear e a caridade ir junto caso não existisse a autoridade das Escrituras mostra, com efeito, que é essa Escritura o único ápice e autoridade no qual, sem ela, estaríamos perdidos, sem o “fundamento e pilar de nossa fé”.

 

É muito comum vermos nos escritos dos pais declarações enfáticas como essa de que a fé está fundamentada nas Escrituras, mostrando por meio dessa figura que a nossa fé e doutrina deve estar em conformidade com a Escritura, sob a autoridade dela. Ir além daquilo que está escrito em matéria de fé significa se rebelar contra a autoridade pela qual nós estamos fundamentados. E isso sempre foi absolutamente rejeitado pelos pais da Igreja primitiva, que sabiam que não podiam acrescentar nada à doutrina do Novo Testamento.

 

A clareza da linguagem expressada por Agostinho para a suficiência e superioridade das Escrituras é o que mais impressiona os seus leitores. Ao contrário daquilo que pregam os católicos dos dias de hoje, dizendo que a Bíblia é doutrinariamente insuficiente para a salvação do homem, Agostinho não receia em declarar exatamente o contrário, dizendo explicitamente que ela não silenciou em vista de nossa salvação:

 

“Assim, em vista de nossa salvação, a Sagrada Escritura não silenciou sobre este tipo de fornicação da alma” (A Doutrina Cristã, Livro II – Sobre os sinais a serem interpretados nas Escrituras, Cap.31)

 

Diante de tudo isso, o que fica mais marcado é certamente a profunda superioridade das Escrituras, tão acentuado por Agostinho de Hipona, que numa mesma obra chega a citar várias vezes tal fato incontestável:

 

“E o que é mais, o que não aprendeu em nenhuma outra parte, somente encontrará na admirável superioridade profundidade das Escrituras (A Doutrina Cristã, Livro II – Sobre os sinais a serem interpretados nas Escrituras, Cap.63)

 

A admirável e profunda superioridade das Escrituras pode ser observada claramente por qualquer um que se interesse pelos escritos deste bispo, que coloca as Escrituras como profundamente superior em matéria de fé em vista do nosso doutrinamento para a salvação. Não há o que contentar, pois a linguagem é por demais óbvia e auto-explicativa.

 

“Quando as pessoas, que ignoram costumes diferentes dos seus, leem certos fatos, julgam-nos torpeza, a não ser que sejam instruídos pela autoridade das Escrituras (A Doutrina Cristã, Livro III – Sobre as dificuldades a serem dissipadas nas Escrituras, Cap.22)

 

Mas não para por aqui. Ele afirma também que a Escritura, “ditada pelo Espírito Santo”, é a própria Verdade:

 

“Senhor, por acaso não será verdadeira a tua Escritura, ditada que foi por ti, que és verdadeiro, ou melhor, que és a própria Verdade? (Confissões, XIII; 29,44)

 

Afirma também que é o Livro de Deus:

 

A Escritura é o livro de Deus, carta que nosso Pai celeste nos envia da pátria” (In, Ps 26,II,1)

 

E que é a “Voz do Cristo”:

 

“A Escritura é a voz do Cristo (Os Christi Envangelium est; Sermão 851,1)

 

Diante disso, é de se pressupor que a “voz do Cristo” e o “livro de Deus” não seja outra coisa senão o ápice “da mais salutar autoridade” em matéria de fé. Por isso Agostinho discorda de Cipriano numa questão referente ao batismo, porque este já não havia mais se apoiando na autoridade das Escrituras, mas sim nas suas próprias obras e numa carta sua dirigida a um concílio:

 

“Mas que Cipriano tivesse tido do batismo uma opinião contrária à norma e à prática da Igreja, se verifica não já nas Escrituras canónicas, mas nas obras escritas por ele e numa sua carta dirigida a um concílio” (Opere di Sant'Agostino, 93, 10;38: pag. 857)

 

É fácil ver Agostinho colocando a Escritura no maior patamar de autoridade de diversas formas e maneiras diferentes, sempre mostrando o mesmo ponto de vista de que ela é a maior autoridade doutrinária dos cristãos. Além do que já vimos até aqui, vemos também ele chamar a Escritura de “divina”, novamente uma linguagem na qual ele JAMAIS se refere quando o assunto é a “tradição”:

 

“Deles recebemos grandes favores, como é fácil de verificar em frequentes passagens das divinas Escrituras (A Doutrina Cristã – Síntese Moral, Cap.33)

 

“Certamente, Deus nos ama e as divinas Escrituras proclamam bem alto esse amor para conosco (A Doutrina Cristã – Síntese Moral, Cap.34)

 

Os sinais que Deus comunicou aos homens (matéria de fé) não se encontram fora das santas Escrituras, mas dentro delas:

 

“É sobre esse tipo de sinais e no que se refere aos homens que determinei examinar e estudar aqui. E por que os sinais nos foram comunicados por Deus, e que se encontram nas santas Escrituras, foram-nos comunicados pelos homens que as escreveram” (A Doutrina Cristã, Livro II – Sobre os sinais a serem interpretados nas Escrituras, Cap.3)

 

É por meio das Escrituras que conhecemos a vontade de Deus, e ela que nos socorre nos tão grandes males da vontade humana:

 

“Daí provém que a divina Escritura, a qual socorre a tão grandes males da vontade humana, tendo sido originada de uma só língua que lhe permitia propagar-se oportunamente pelo orbe da terra, foi divulgada por toda a parte, em diversidade de línguas, conforme os intérpretes. Os que a leem não desejam encontrar nela mais do que o pensamento e a vontade dos que a escreveram e desse modo chegar a conhecer a vontade de Deus, segundo a qual creem que esses homens compuseram” (A Doutrina Cristã, Livro II – Sobre os sinais a serem interpretados nas Escrituras, Cap.6)

 

Ele sempre tem o maior cuidado em não estar contradizendo os ensinamentos da “Escritura divina”, ainda que em muitas vezes ela possa vir a repreender “alguns de nossos vícios”. Mesmo quando incompreendida à razão humana, não devemos raciocinar em nosso íntimo que é ela que está errada, pois tudo o que é de melhor e mais verdadeiro é o que está escrito ali:

 

“Em seguida, é preciso tornar-nos mansos pela piedade, para não contradizermos a Escritura divina. Seja quando ela for compreendida e vier a repreender alguns de nossos vícios, seja quando, incompreendida, nós nos imaginarmos capazes de julgar e ensinar melhor do que ela. Devemos, ao contrário, pensar e crer que é muito melhor e mais verdadeiro o que está escrito ali, ainda que oculto, do que possamos saber por nós próprios (A Doutrina Cristã, Livro II – Sobre os sinais a serem interpretados nas Escrituras, Cap.9)

 

É nas Escrituras que nós temos que procurar diligentemente com vistas a encontrar a vontade de Deus:

 

“O homem temente a Deus procura diligentemente a vontade divina nas santas Escrituras (A Doutrina Cristã, Livro III – Sobre as dificuldades a serem dissipadas nas Escrituras, Cap.1)

 

Se é nas santas Escrituras que nós encontramos a vontade de Deus, então ela só pode ser suficiente para isso. Ninguém indicaria as Escrituras como o veículo a descobrirmos a vontade de Deus, se ela não é mais do que “insuficiente” e “incompleta”, como pregam os católicos. O Espírito Santo, que “redigiu a Escritura”, o fez na expectativa de que aquele que a ler caminha-se com muito mais confiança, seguindo ela:

 

“Todavia, quem escruta os divinos oráculos deve esforçar-se por chegar ao pensamento do autor, por cujo intermédio o Espírito Santo redigiu a Escritura (A Doutrina Cristã, Livro III – Sobre as dificuldades a serem dissipadas nas Escrituras, Cap.38)

 

“Com efeito, caminha-se com muito mais confiança ao seguir as divinas Escrituras” (A Doutrina Cristã, Livro III – Sobre as dificuldades a serem dissipadas nas Escrituras, Cap.39)

 

Mas não há toda essa “confiança” no catolicismo, já que eles anunciam um “outro evangelho” totalmente diferente daquele anunciado na Bíblia e pelos pais da Igreja, e esse pseudo-evangelho dos católicos anuncia uma Bíblia insuficiente, incompleta, que não é o ápice da autoridade e que é totalmente carente de uma “tradição oral”, e que, além disso, não consegue doutrinar suficientemente os seus leitores, pelo que eles são obrigados a buscarem nessa tal de “tradição oral” as várias doutrinas que a Bíblia simplesmente silencia do início ao fim. Como ter confiança numa coisa dessas???

 

Certamente que há algo de errado com o “evangelho” dos católicos, que, longe de ser o evangelho bíblico do primeiro século, passa muito mais perto de ser uma manipulação maligna que busca depreciar, zombar e desprezar a Palavra de Deus escrita, pela qual podemos caminhar com “muito mais confiança”. A própria refutação às heresias não era com base em conceitos não-bíblicos, mas sim com vigilância e diligência nas santas Escrituras:

 

“Essa heresia tornou-nos mais vigilantes e diligentes para descobrirmos nas santas Escrituras o que escapou a Ticônio, menos atento, em menos preocupado em saber que a fé é um dom daquele que reparte a cada um segundo a sua medida” (A Doutrina Cristã, Livro III – Sobre as dificuldades a serem dissipadas nas Escrituras, Cap.46)

 

Em vista de tudo isso, é obrigação de todo e qualquer cristão ser fiel às palavras da Escritura, pois com isso “crescerá pelo testemunho das magníficas palavras das Escrituras”. O maior objetivo do cristão é crescer espiritualmente (2Co.13:9), e Agostinho indica a Escritura como o meio a se alcançar isso. Somos incentivados a sempre buscarmos citações Escriturísticas para fundamentarmos aquilo que estamos falando. Não somos como os católicos, que sempre omitem as passagens, mas dizem que foi parar na “tradição”. Ao contrário, é com as citações constantes das Escrituras que não “desagradamos com nossas palavras pessoais”:

 

“É, pois, de toda a necessidade para o orador – que tem o dever de falar com sabedoria, ainda que não consiga fazê-lo com eloquência – ser fiel às palavras das Escrituras [...] Assim, quem era menor por seu próprio vocabulário crescerá pelo testemunho das magníficas palavras das Escrituras. Ele agradará, certamente, ao provar com citações escriturísticas, já que pode desagradar com suas palavras pessoais” (A Doutrina Cristã, Livro IV – Sobre a maneira de ensinar a doutrina, Cap.8)

 

Não há outra saída. Ou provamos o que dizemos pelas “magníficas palavras da Escritura”, ou então será simplesmente a nossa própria palavra que, por si só, não tem força alguma. Não existe um “meio termo” e nem tampouco um apelo à “tradição oral” como um meio de se apoiar nela, conquanto que não esteja apoiado pelas Escrituras. As palavras das Escrituras são, mais uma vez, indicadas como o único meio pelo qual nós temos que fundamentar as doutrinas cristãs. Fora dela, serão apenas as nossas próprias “palavras pessoais”.

 

Finalmente, à luz de tudo aquilo que vimos e analisamos ao longe deste estudo sobre os Pais da Igreja e a Sola Scriptura, devemos crer firmemente que as Escrituras canônicas estão colocadas no ÁPICE DA AUTORIDADE. Elas não estão igual ou abaixo de uma “tradição”, nem tampouco é insuficiente. Mas, como o maior ápice da autoridade, deve ser crida como a autoridade suprema em regra de fé e prática (o princípio básico da “Sola Scriptura”), pela qual nós devemos total sujeição e submissão, em obediência à Palavra escrita:

 

“Não faltam obras eclesiásticas – sem contar as Escrituras canônicas, salutarmente colocadas no ápice da autoridade – por cuja leitura um homem bem dotado pode penetrar, além de seu conteúdo, no estilo das mesmas” (A Doutrina Cristã, Livro IV – Sobre a maneira de ensinar a doutrina, Cap.4)

 

Quando não nos fundamentamos naquilo que está escrito, estamos simplesmente rejeitando o ápice da autoridade. E, quando não colocamos o fundamento sobre esse “ápice da autoridade”, a nossa própria fé cambaleará, e tudo o que podemos dizer não passará de meras palavras pessoais jogadas ao vento, desprovidas de sabedoria ou eloquência, a qual nós somente alcançamos se formos “fiéis às palavras das Escrituras”.

 

Por isso, é sensato e de bom senso crermos, sim, que a Sagrada Escritura é o fundamento e pilar de nossa fé, colocada no ápice da autoridade, com vistas ao nosso aperfeiçoamento e doutrinamento necessários à nossa fé cristã. Quem discorda disso não está se revoltando contra mim, mas contra esse mesmo ápice de autoridade que nos foi legado por Deus.

 

 

-O Século V e a autoridade e suficiência das Escrituras questionada

 

Com o verdadeiro arsenal e bombardeio constante às teses papistas de negação à Sola Scriptura, por meio dos escritos dos pais da Igreja primitiva, uma pergunta bastante conveniente e relevante seria de quando e como que a Escritura Sagrada foi deixando de ser esse ápice de autoridade e que a tradição passou a tomar força da forma na qual vemos hoje. Analisando os primeiros concílios e cartas, parece relevante que a partir do Cânon Vicentino (434 AD) uma nova medida foi outorgada, com a finalidade de estabelecer uma nova regra de interpretação que seria imposta a partir deste tempo. Esse mesmo Concílio diz:

 

“Aqui, talvez alguém perguntará: estando o cânon das Escrituras completo e suficiente em si, que necessidade ainda temos de lhe juntar a interpretação da Igreja? A resposta é essa: sendo profundas as Escrituras, não lhes dão a mesma interpretação todos os homens ... Sendo, pois, tão intrincado e multiforme o erro, temos grande necessidade de estabelecer uma regra de interpretação dos profetas e apóstolos que se harmonize com o padrão interpretativo da Igreja Católica ... A regra nossa será, pois, guardada, se aceitarmos os critérios de universalidade [isto é, ecumenicidade], antiguidade e concordância” (O Cânon Vicentino, 434 AD)

 

Eles já reconheciam e admitiam que o cânon das Escrituras estava completo, bem como admitiam também que era suficiente em si (mais um princípio básico e fundamental da Sola Scriptura: a suficiência da Bíblia!). Reconhecendo estes dois fatores (cânon completo e suficiência bíblica), eles instauram uma nova regra que seria observada na Igreja para evitar as contradições entre as interpretações de diversos nomes conhecidos da época.

 

Para evitar tais interpretações deturpadas, eles “tiveram a necessidade” de estabelecerem uma nova regra que consistia em aceitar a tradição como “intérprete” das Escrituras. O fato de essa nova regra ser uma medida tomada a partir dali (e não antes) é facilmente observável a partir de toda a linguagem no tempo futuro (“a regra nossa será), mostrando que, por causa da “grande necessidade de estabelecer uma regra de interpretação” nova, eles tomaram a decisão de agir assim.

 

Mesmo assim, eles ainda não deixavam de crer na suficiência da Bíblia em si mesma (como é claramente declarado no início), e não usavam a tradição como um meio de incluir doutrinas (como se a Escritura fosse doutrinariamente insuficiente para isso), mas apenas como um meio de interpretar essas doutrinas que se encontram totalmente na Sagrada Escritura, suficiente em si mesma e no ápice da autoridade. Essa nova regra, instituída a partir daí, é observada até hoje nas Igrejas Ortodoxas. George Florovsky, arcipreste da Igreja Ortodoxa (1893-1979), escreveu sobre isso nas seguintes palavras:

 

“Além disso a exegese era, naquele tempo, o principal, e talvez o único, meio teológico, e, a autoridade das Escrituras era soberana e suprema. Os Ortodoxos eram forçados a levantar as questões hermenêuticas cruciais: Qual era o princípio de interpretação? ... Foi nessa situação histórica que a autoridade da Tradição foi invocada pela primeira vez” (Sobre Igreja e Tradição – Uma Visão Ortodoxa e Oriental)

 

Na época de Agostinho e dos demais pais da Igreja nos primeiros séculos (os quais analisamos cuidadosamente até aqui), a exegese era o único meio pelo qual a Escritura era interpretada, e a Sagrada Escritura era, nas palavras do próprio arcipreste da Igreja Ortodoxa, “soberana e suprema”. Mas tempos depois, de acordo com a situação histórica da época em que se levantavam muitos hereges com distorções da Bíblia, tiveram que usar a tradição como um método de “interpretação” da Bíblia.

 

Mas o próprio Florovsky faz questão de ressaltar que essa “tradição” não serve nem nunca serviu para fundamentar doutrinas que não se encontram nas Escrituras, nem tampouco para deixar a Sagrada Escritura “insuficiente” em si mesma. Ele diz:

 

“A tradição na Igreja Antiga era, antes de tudo, um princípio e método hermenêutico. As Escrituras podiam ser correta e completamente acessadas e entendidas somente à luz e no contexto da Tradição Apostólica viva, que era um fator integral da existência Cristã. Era assim, não porque a Tradição pudesse acrescentar qualquer coisa ao que havia sido manifestado nas Escrituras, mas porque ela provia o contexto vivo, a perspectiva compreensiva, e só nela, a verdadeira "intenção" e o "projeto" total dos Santos Escritos, da Divina Revelação, poderiam ser detectados e pegos” (Sobre Igreja e Tradição – Uma Visão Ortodoxa e Oriental)

 

Portanto, essa “tradição” (método hermenêutico para interpretar as Escrituras) não era de forma alguma aquilo que é hoje pregado pelos católicos romanos, um verdadeiro circo de doutrinas não-bíblicas e extra-bíblicas, que não se encontram em parte alguma das Escrituras, mas servem como pretexto para fundamentarem cada vez mais dogmas em cima dela. Ao contrário, ela servia apenas e tão somente para interpretar a Bíblia, sem poder acrescentar qualquer coisa ao que havia sido manifestado nas Escrituras!

 

Florovsky segue o seu raciocínio citando também Atanásio:

 

“O argumento era ainda estritamente Escritural, e, em princípio, Santo Atanásio admitia a suficiência das Escrituras, sagradas e inspiradas, para defesa da verdade (c.Gentes,I). Somente que as Escrituras tinham que ser interpretadas no contexto da tradição viva da crença, sob a direção e controle da "regra da fé." Essa "regra," no entanto, não era de modo algum, uma autoridade "estranha" que poderia ser "imposta" sobre os Santos Escritos. Era a mesma "pregação Apostólica" que estava escrita nos livros do Novo Testamento, mas era, como se fosse, essa pregação in epítome ... No capítulo de encerramento dessa primeira epístola a Serapion, Santo Atanásio retorna mais uma vez ao mesmo ponto. "De acordo com a tradição passada a nós pelos Padres, eu passei essa tradição sem inventar nada estranho a ela. O que eu aprendi, eu escrevi (ενεχαραξα, eneharaksa), em conformidade com as Escrituras" (c.33)” (Sobre Igreja e Tradição – Uma Visão Ortodoxa e Oriental)

 

Note novamente que essa tradição não afetava de maneira nenhuma os princípios básicos da Sola Scriptura (de que a Sagrada Escritura é o ápice da autoridade em matéria de fé e doutrina e suficiente em si mesma), pois o próprio arcipreste ortodoxo renomado afirma que eles eram ainda (na época de Atanásio, séc.IV) “estritamente Escriturais”, isto é, estritamente fundamentados naquilo que está escrito na Bíblia.

 

Ele ainda afirma que Atanásio admitia a suficiência das Escrituras, e que essa nova “regra interpretativa”, chamada de “tradição”, não era algo paralelo ou diferente das Escrituras, mas exatamente a mesma pregação apostólica que estava escrita nos livros do Novo Testamento! Ele ainda segue citando Atanásio, que dizia seguir a tradição, mas não uma tradição não-bíblica que adiciona doutrinas ou dogmas que não se encontram na Escritura (como é o caso dos católicos romanos), mas sim em conformidade com as Escrituras! Essa é a confirmação de tudo aquilo que já vimos até aqui.

 

A tradição, longe de trazer insuficiência à Bíblia ou de retirar o ápice de superioridade dela, pode ser considerada apenas quando está em total conformidade com as Escrituras, e não para acrescentar doutrinas que não se encontram na Bíblia! A discussão sobre se essa “nova regra interpretativa” gerou mais melhorias do que danos vai longe, mas por hoje basta dizer que, pelo menos no caso da Sé de Roma, houve um total desvio do significado de “tradição”, que passou a significar uma outra regra de fé e doutrina paralela à Bíblia e com a mesma autoridade dela, colocando na fé cristã doutrinas e dogmas que não tem nenhum cabimento bíblico, cujos ensinamentos foram completamente baseados nessa “tradição”.

 

Sobre isso o próprio Compêndio do Vaticano II diz:

 

Não é através da Escritura apenas que a Igreja deriva a certeza a respeito de tudo aquilo que foi revelado. Por isso, ambas (Escritura e Tradição) devem ser aceitas e veneradas  com igual sentido de piedade e reverência (Compêndio do Vaticano II, pág.127)

 

“À tradição deve dar-se o valor que se dá à Palavra de Deus revelada, contida nas Sagradas Escrituras” (Terceiro Catecismo Católico, pág.154)

 

A Palavra de Deus começou a ser tratada com desprezo, já não era mais há muito tempo o local onde se encontrava a “certeza a respeito de tudo aquilo que foi revelado”, mas perdeu espaço para uma tradição inventada sob o nome de “tradição apostólica”, ganhando exatamente “o mesmo valor que se dá à Palavra de Deus escrita”. Não é preciso dizer mais nada. A própria História nos mostra o quanto que o desvio do significado real desta chamada “tradição” levou a fé católica às ruínas, sufocando cada vez mais as Escrituras através de suas doutrinas e dogmas que em parte nenhuma se encontra nos Livros Sagrados.

 

Aquilo que no século IV foi instituído apenas como um “método interpretativo”, sem tirar a autoridade máxima das Escrituras e nem tornar a Escritura insuficiente, os papas transformaram em uma “tradição” que corrompe o evangelho bíblico e verdadeiro, totalmente a par da Escritura e que, de tanto entrar em contraste com ela, chegaram ao ponto de dizerem hoje que a Sagrada Escritura é insuficiente, e que não está mais colocada no ápice da autoridade, como o pilar e fundamento da nossa fé, pelo qual devemos total sujeição e harmonia aos seus escritos.

 

O resultado disso se vê já há muito tempo, quando houve uma mutação do significado de “tradição”, passando a representar acréscimos de coisas que não haviam sido manifestadas nas Escrituras, sendo exatamente a saída e pretexto que os papistas se utilizaram para dar “explicação” às suas mais novas criações de “dogmas” e “doutrinas” que confessadamente não tem base Escriturística. Essa nova “tradição” já não mais era “exatamente a mesma pregação apostólica que estava escrita nos livros do Novo Testamento”, mas sim um amontoado de doutrinas não-bíblicas e inteiramente a par da Escritura, como os próprios teólogos católicos admitem:

 

“A tradição é parte da revelação de Deus e por isso deve ser respeitada a par da Escritura. A tradição é o ensinamento de Jesus Cristo e dos apóstolos, feito a viva voz, e pela Igreja transmitido até nós sem alteração” (Giuseppe Perardi, op. cit., pag. 375)

 

Essa diferença substancial e crucial no sentido de “tradição”, passando a representar o fundamento que os papistas precisavam para sustentar as suas invenções heréticas (já que a Bíblia não lhes dava tal fundamento, o que fizeram com que a chamassem de “insuficiente”), foi um dos grandes problemas enfrentados pelos Reformadores. As tradições haviam se degenerado em tradicionalismo e adquiriram autoridade que não possuíam, usurpando a autoridade bíblica.

 

O que os Reformadores fizeram não foi nada a mais do que voltar ao conceito cristão primitivo tão pregado pelos pais da Igreja, de que a Bíblia é o ápice da autoridade em matéria de fé, suficiente em si mesma e que todas as doutrinas devem estar em conformidade com ela. Os princípios da Sola Scriptura foram novamente expostos e o real significado de “tradição” foi novamente trazido à tona.

 

Por mais que os católicos tentam trazer à tradição um significado “a par da Escritura”, fazendo dela um fundamento extra para aquilo que a Escritura não lhes dá crédito, os maiores eruditos entendidos do assunto de patrística jamais se uniram à interpretação de Roma no concernente ao valor da tradição a par da Escritura nos pais da Igreja. Ao contrário, o erudito Hans von Campenhausen afirma no seu livro “Os Pais da Igreja”:

 

“A tradição da Igreja não é mais um fator independente ao lado das Escrituras: ela simplesmente confirma o testemunho da Bíblia” (Os Pais da Igreja, pág.27)

 

“Eles [os pais da Igreja] se consideram pregadores da verdade que foi revelada, e a Bíblia, livremente interpretada, é seu único firme apoio” (Os Pais da Igreja, pág.41)

 

O bispo da Igreja Ortodoxa, Kallistos Ware, vai além e afirma:

 

“Igreja Cristã é uma Igreja Escritural: a Ortodoxia crê nisso, tão ou mais firmemente que o Protestantismo. A Sagrada Escritura é a expressão suprema da revelação de Deus ao homem, e os Cristãos devem ser sempre o ‘Povo do Livro’ (“A Igreja Ortodoxa”, Bispo Kallistos Ware)

 

Quando, porém, o conceito de “tradição” foi corrompido e virado pretexto para criação de heresias, nada mais sobrou do que um recomeço às origens, aos princípios da Sola Scriptura tão pregado pelos pais da Igreja, colocando a tradição em seu devido lugar (em sujeição às Escrituras), como válida apenas no caso de estar em conformidade com ela, servindo de apoio ao que nela está escrito, não sendo jamais uma base paralela para criação de dogmas não-bíblicos ou que contradizem as Escrituras.

 

Longe de eu ter dito tudo o que seria necessário dizer neste resumo sobre Os Pais da Igreja e a Sola Scriptura, isso serve para desmontar de uma vez por todas com mais este último mito tão pregado pelos servos do papa: Que a Sola Scriptura é uma “invenção de Lutero” e que jamais teve lugar na igreja primitiva. Embora de gente assim sem instrução e sem nem um mínimo de conhecimento histórico possa se esperar qualquer coisa mesmo, temos novamente que repetir, através deste presente estudo, que tudo o que os Reformadores fizeram foi resgatar o sentido real de “Escritura” e “tradição” em seu devido lugar, de acordo com o próprio testemunho que os Pais têm a nos dizer sobre isso.

 

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Por: Lucas Banzoli.

 

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